Retalhos da vida de um consultor

de palavras não sei. apenas tento desvendar o seu lento movimento (ary dos santos)


Porque espero, e enquanto espero,
Faço uma rima sobre nada,
Não é de amigo, nem é de amada,
Não tem saída, nem entrada,
Anda fugida,
Aturdida,
Enquanto espera,
E desespera,
Ser inventada.
Dou-lhe forma, enquanto espero,
Escrevo-a, porque quero.
Assinalemos para a postheridade este dia funesto.
O Parlamento acaba de aprovar, com os votos favoráveis de quasi todos os deputados da Nação, o Segundo Prothocolo do Acordo Ortographico.
Manchados ficam para sempre os mandatos que o Povo ludibriado concedeu a essa corja de traedores da Língua Mãe.
Mau grado as doutas recommendações de um heroeco grupo de sábios que, remando vigorosamente contra todas as marés da ignorância, subscreveu uma scientifica pethição destinada a pôr cobro a este jaez acordo, foi hoje dada a última machadada no uso acertado da nobre língua que Camoens tornou célebre.
Os auctores moraes deste atentado perpetrado à correcta ortographia serão implacàvelmente julgados pelas gerações vindoiras pelo damno quasi irreparável que provocaram à Lingua Mater, ao colocarem nesse compromisso ao brasileiro a sua polutha assignatura.
Serão um dia erguidas dignas esculpturas aos defensores da nossa identidade multissecular e do nosso riquíssimo legado civilizacional e histórico.
Salve, de entre todos, ó ilustre poetha Vasco Graça Moura, a tua lupta não será van. Toda a rhetorica desses lacaios das corporações edithoriais brasileiras não conseguirá forçar-nos a escrever como almejam decretar. Usaremos até à eternidade a nossa ortographia, por mais que a apelidem de archaica, e o acordo terá o fim que merece: cortado em fanicos, pela thesoura do desuso.
Lisboa, Eurásia, 2084.
O mundo está dividido em três países, Eurásia Oceânia e Amerísia, em guerra perpétua entre si.
O Partido tomou conta de todos os aspectos da vida numa incessante tentativa de erradicação da individualidade.
A administração pública encontra-se repartida por quatro grandes ministérios – o Ministério da Verdade, que controla a imprensa, o entretenimento e a educação, o Ministério do Amor, que mantém a lei e a ordem, o Ministério da Paz, que se ocupa das questões da guerra e o Ministério da Abundância, que lida com a economia e finanças. Até a linguagem dos cidadãos é regulada pelo Partido em prolixos regulamentos, despachos, leis e instruções administrativas. As conversas entre pessoas são desencorajadas, em benefício da escrita, para que de tudo fique registo. Apenas a informação escrita é reputada como verdadeira, pois só esta permite uma reprodução fiel e autêntica. A Polícia Intelectual tem como função vigiar e prevenir os crimes de pensamento e manter a cidade no mais absoluto silêncio. Cartazes espalhados em pontos estratégicos, desprovidos de quaisquer imagens, reproduzem slogans imperativos: “A Guerra é a Paz”, “A Liberdade é Escravatura”, “A Imagem é Ilusão”, “O Livro Educa”.
Uma massa uniforme de cidadãos adormecidos folheia passivamente os livros editados e controlados pelo Partido. As ideias mais absurdas encontram eco unânime nos homens desde que constem de uma qualquer brochura. Se está escrito, é verdade. A humanidade deixou de pensar criticamente, mergulhado nas letrinhas pretas em fundo branco, alheando-se do mundo físico que a rodeava.
José Silva encontra-se à porta do prédio onde vive e observa o cartaz da esquina. Em letras garrafais: “A Escrita Tudo Regista”.
Abre a porta e o chão do hall de entrada está pejado de cartas, jornais, panfletos, que o carteiro atirou pela fresta da porta. A sua máquina de fax cospe, como sempre, tinta preta em golfadas mecânicas. O rolo de papel já está no fim, uma única página de grande envergadura enrola propaganda governamental e ordens aos cidadãos. A última instrução é a nova versão do Acordo Ortográfico, que impõe regras universalmente aceites sobre a forma como os habitantes da Eurásia devem escrever. Quaisquer discrepâncias são severamente controladas pela Polícia Intelectual e conduziriam o cidadão rebelde ao cárcere.
José Silva notifica o Partido, pela mesma máquina, de ter entrado no seu domicílio.
Vivia uma vida dupla.
Na aparência, parecia respeitar acriticamente todos os ditames impostos. Mas vivia um conflito interior que o dilacerava. Simplesmente acreditava no que via e ouvia.
No entanto, intimanente descria do que lhe davam a ler, se não encontrava correspondência com a realidade observada. Sentia-se diferente. Receava pela sua saúde psíquica.
Evidentemente, não poderia contar a ninguém a aflição que a noção distorcida que tinha da realidade lhe causava. Nem sequer à sua família, formada pela sua mulher e os dois filhos, de cujas mãos todas as noites arrancava, a muito custo e por entre choro convulsivo, os seus inúmeros livros infantis, quando chegava a hora de dormir.
A sua percepção do mundo tinha começado a mudar quando, num antiquário situado num bairro de má reputação, adquiriu um aparelho do início do século. Como membro do Partido, gozava de uma precária liberdade de movimentos que não era autorizada ao cidadão comum. Era uma pessoa curiosa, e um objecto estranho, uma espécie de caixa grande de plástico com um vidro à frente e uns botões de lado, atraiu a sua atenção. O vendedor não fazia ideia do que se tratasse.
Visitou o seu avô, no asséptico lar do Estado onde este estava depositado até ao fim dos seus dias. O avô, um poço sem fundo de sabedoria ancestral, explicou-lhe, por apontamentos a lápis no velho bloco de notas - não fosse um agente da Polícia Intelectual estar à escuta - que, pela descrição do neto, deveria tratar-se de uma televisão. Aparentemente, este objecto antigo conseguia reproduzir as imagens e os sons de acontecimentos ocorridos, fosse a que distância fosse. O aparelho tinha sido inventado na segunda metade do século XX, tanto quanto sabia e lhe contou o avô, como antes lhe havia contado o avô do seu avô. Sorrateiramente, anotou também no bloco que bastaria ao neto adquirir um vídeo, um aparelho que gravava as emissões da televisão, para que pudesse ver, com os seus próprios olhos, que a Humanidade tinha chegado à Lua. Claro, desde que conseguisse comprar uma cassete bem conservada.
À socapa, apagaram os recados escritos com a velha e gasta borracha que o avô guardava dentro do seu maço de tabaco (adquirida por uma fortuna, tal como o lápis, no mercado negro, pois que o Partido não autorizava quaiquer escritos que não deixassem rasto).
José não descansou enquanto não encontrou e comprou, a dinheiro vivo e sem recibo, obviamente, o aparelho de vídeo no mercado negro. Com cada vez mais frequência, e aproveitando-se da sua condição de membro do Partido, que suavizava a vigilância da Polícia Intelectual, foi-se infiltrando nos meios obscuros do mercado negro. A pouco e pouco, foi ganhando a confiança de sujeitos marginais, e acabou por ser admitido num círculo secreto de sujeitos discretos que, em caves escuras de bairros degradados e marginais, observavam imagens de filmes antigos e programas de televisão gravados.
Numa das sessões, visionaram um documentário sobre um escritor da antiga Grã-Bretanha, um tal de George Orwell, que havia escrito um romance muito popular, intitulado “1984”. Esse romance, certamente uma obra encomendada pelo Estado, conseguiu convencer os cidadãos de que um mundo dominado pelo audio-visual seria um mundo de alienados, controlados pelo poder político. Ironicamente, tratava-se de um livro hoje proibido pelo Partido.
Mas aquele grupo de subversivos estava decidido a combater o jugo do mundo irreal difundido pela palavra escrita. Tinham jurado, secreta solenemente, promover clandestinamente o audio-visual e combater, com a vida se preciso fosse, a literacia dos cidadãos.
(Louvado seja o leitor que aguente um post deste tamanho. Já cá não escrevinhava vai para mais de um mês, agora é dose.)
Enquanto percorro a passo de caracol o viaduto Duarte Pacheco, ligo a TSF e oiço, com a atenção que a personagem merece, a última invenção do Luís Filipe Menezes para animar as hostes dos seus correligionários, parece que o homem vai conquistar o poder fazendo do PPD um partido à imagem do Alberto João. Depois escuto, com a atenção que a personagem merece, um não-sei-quantos-qualquer-coisa do partido do governo afirmar que o Luís Filipe Menezes, “esse paladino da liberdade da imprensa”, teve o descaramento de estar presente no congresso do PSD-Madeira, logo agora que os laranjas autonómicos decidiram fechar a porta de tão disputado e emocionante evento aos jornalistas. Sobre os elogios do cara-de-sapo ao ex-Bocassa da Madeira, este tal não-sei-quantos-qualquer-coisa comenta que o PS não comenta declarações de órgãos institucionais no âmbito de funções institucionais.
Desligo, pois, o rádio e observo os colegas de fila. Passo por uma secretária de direcção que penteia as sobrancelhas ao retrovisor, retoque que denuncia, penso eu com os meus botões para me entreter, a secreta esperança de que os olhinhos que ela faz ao chefe sejam finalmente notados e enfim lhe faça o convite para um fim de semana naquela Pousada de Portugal que saiu no último número da Evasões.
Ultrapasso em passo lento um mercedes-classe-s último modelo onde um sujeito bem apetrechado de relógio de bracelete de prata e botões reluzentes de punho enfia o seu anelar esquerdo, provido de aliança de ouro, pela narina do lado de cá, em gestos circulares de uma meticulosa higiene exploratória, enquanto a sua mão direita encosta o seu bojudo e reluzente aparelho celular, carregado de WAPS, GPS, e-mail, 3G e demais gadgets do último grito da tecnologia, à sua orelha direita, que, se for simétrica, como é de prever, à orelha esquerda que não resisto a observar, será pelo menos tão avantajada e peluda como esta. Lá longe, e nunca mais fica mais perto, o écrã gigante do fim da auto-estrada de Cascais fere os olhos da multidão de sonâmbulos condutores suburbanos com ticks das manchetes dos matutinos e spots promocionais da nova telenovela da TVI.
Finalmente rolo a quarenta à hora pelo túnel do marquês (porque ninguém quer ser multado por andar a mais de cinquenta). Quatro fugas, vindos da estátua do nosso déspota iluminado, aceleram bruscamente mal a silhueta do minha carrinha assome à boca do túnel, antes que eu tenha a audaz ideia de entrar à sua frente na fontes pereira de melo. Eu que espere, que a faixa de rodagem é o seu reino. E eu espero, claro, entupindo, atrás de mim, a saída do túnel, e levando, como justa consequência da minha urbanidade inadequada, com um merecido e valente buzinanço do colega dos outros quatro, que também calhava estar de serviço e que levava um cliente apressado no regaço do seu mercedes com trinta anos.
Chegado finalmente ao parqueamento ao lado do escritório e largada a carripana, cruzo-me com o simpático e jovem cidadão das terras de vera-cruz que (o pobre) imigrou para terras lusas tão só para cuidar como caixa do estacionamento do saldanha residence. Com a sua caracetrística voz de falsete, deseja-me um colorido “um bom djia dji trabálho, sinhô Tchiagô”, com aquele sorriso derretido que não procura disfarçar a segunda intenção.
Subo o elevador ao som enjoativo do Jon Bon Jovi e sento-me à secretária, onde o meu pálido colega do lado, perito em créditos, débitos, movimentos contabilísticos e amortizações extraordinárias do activo imobilizado corpóreo, debita-me, como todos os dias, a automática, mas plena de bonomia, expressão:
“Então, Tiago, que tal Tiago, tudo bem? Tudo bem, Tiago.”
Sem que eu lhe tivesse retorquido, é certo, mas o tipo dá de barato, sem estar longe da verdade, que eu lhe quisesse polidamente perguntar se também com ele estava tudo bem. Também ele, que tal, me deseja um bom dia de trabalho. De seguida, liga a um cliente e oiço:
“Então, fulano, que tal, fulano, tudo bem? Tudo bem, fulano.”
Com esta, eu, que havia acabado de me sentar, levanto-me para um café no bar do escritório.
Aí, os meninos discutem a arbitragem do fim de semana e as meninas a fantástica deslocação ao IKEA ou o bolsar nocturno do bebé. O sócio de outro departamento cruza-se comigo, pergunta se “está tudo fixe”, para parecer um gajo bacano, e deseja-me, pois claro está, um bom dia.
Mais precisamente, um bom-dia-de-trabalho.
Devo dizer, com toda a franqueza e sem querer ofender ninguém, que já não aguento estas simpatias anódinas. Se se afastassem com uma saudação simples, como fosse “tchau”, “passar bem”, “vai à merda, porco suíno”, mas não, têm de proferir mediocridades neutras como “tem um bom dia de trabalho”. Mas quem lhes meteu na cabeça que a minha concepção de um bom dia passa por um jorna de cumprimento íntegro dos meus deveres laborais? Porque não estar antes virado para um óptimo dia pessoal e um dia laboral, digamos, rigorosamente merdoso?
Depois de uns quantos e-mails e infrutíferas tentativas de pagamento de honorários que me fazem sentir o cobrador do fraque, munido deste amargo estado de espírito matinal, desço para fumar um cigarrito lá em baixo, com vista para o mar de beatas que jaz sobre o asfalto da casal ribeiro, largadas pelos anónimos drogados de escritório, meus semelhantes.
Aproveito, já agora e en passant, para comprar o jornal desportivo, na expectativa de uma uns momentos de descanso intelectual passados a ler crónicas imbecis sobre o complexo mundo da bola, no acolhedor sossego do WC.
Aguarda-me mais uma fila.
Uma rapariga brasileira compra cartões telefónicos e pergunta pelo plafond, não entende nada do que o empregado responde e são tanto os seus perplexos “oi?” que a fila cresce imparável atrás de mim. Com isto, é já meio dia. O rapaz imediatamente atrás da minha pessoa lança os mais vulgares impropérios, à moda do Caixodré.
“Mas que merda esta, dasse!”
Disfarço enquanto coço um olho, viro-me para o tipo, a ver o que se passa. Ele olha colérico para o telemóvel e tecla furiosamente, como se a sua intensa expressividade oral e gestual pudesse ter como consequência provável desencadear nos circuitos internos da geringonça um milagre da física. Como se lançasse uma faísca repentina que tornasse possível a almejada comunicação à distância para a qual o aparelho foi supostamente concebido.
“Foda-se, merda de telemóvel, ó c…!”
Toda a fila, sem mais nada para fazer, pelo menos enquanto a brasileirinha recém-imigrada prosseguia com os seus loquazes e grandiloquentes “oi???”, olhava de soslaio para o desesperado rapaz.
A brasileirinha finalmente entende alguma coisa deste Português sem vogais, larga o poiso e avança a fila.
Avançando consequentemente também ele um lugar, o petiz consegue apanhar uma réstia de rede disponível naquela cave de centro comercial. Mal é conseguida a ligação, o tom de voz repentinamente baixa e adocica.
“Estou, mãe? Mãe? — reverente e animado — Que saudades, mãe! Olhe, estou aqui perto, mãe! Há almoço para mim?”
Pronto, está tudo explicado: era fome, o pobrezinho.
Mas uma fila tem muito que se lhe diga, ou que se lhe escreva. Uma singela fila dá pano para mangas. Basta observar, em vez de simplesmente ver.
À minha frente, o sujeito, temporariamente ao serviço nas obras do escritório do quinto andar do edifício, trajes de rude trabalho braçal contrastantes com o fatinho completo dos escriturários que o rodeavam (trajes mas não só, pois que o odor também era característico de um tipo de labor de carácter mais intensivo), protestava com o preço dos bens que pretendia adquirir: A Bola, o Correio e um maço de Marboro Vermelho (assim mesmo, Marboro sem “l”):
“Cinco euros e dez”, informa o plácido empregado do quiosque.
“Cinco éros e dez????”
“Sim, amigo, cinco euros e dez.”
“Atão, mas a quantos éros está o tabaco e o jornal?”
“Ó amigo, o tabaco aumentou, agora está a três-quarenta-e-cinco”
“Três éros e quantos???”
Ai o c… Levemente desesperado com a espera, e sentindo que o empregado não estava a ter um bom-dia-de-trabalho, acometeu-se-me um raro gesto de solidariedade e fui em socorro do pobre do assalariado. Dirijo-me, cara a cara, para o honesto homem das cavernas e explico:
“Ó amigo, o tabaco está a três éros e quarenta e cinco ramazotes. Por isso é que a conta é de cinco éros e dez ramazotes”.
Vá lá que só o assaliariado percebeu a gracinha de burguês armado ao pingarelho. O trolha bem servido de musculatura não percebeu, mas pagou. Sem ressentimentos, espero que tenha passado um bom-dia-de-trabalho.
A sua auto-estima estava de rastos.
Tinha vergonha da sua cor. Da sua forma. Do seu gosto.
Sentia-se uma fruta feia. Ridícula.
Se, num acesso de loucura exibicionista, resolvesse despir a sua áspera casca de papa-formigas, não teria melhor para mostrar do que a sua carne flácida, pálida e gorda. Num concurso de beleza horto-frutícola, ganharia de caras o último lugar.
Era uma fruta tão indigesta que só a comiam depois de a meterem em lume brando. Um fruto assim, que precise de ser cozinhado para que, a custo, o deglutam, só ele e o marmelo. Mas este, transformado em doce, faz as delícias da criançada. E mais. Um dia, lá em casa, comentando uma cena tórrida de uma telenovela, os pais disseram aos filhos que fossem brincar para o quarto, que as crianças não podiam ver aquela pouca-vergonha. Que "grande marmelada", exclamaram indignados. Em suma, até do agreste marmelo sentia ciúmes.
Como toda a regra tem uma excepção que a confirma, diziam-lhe frutas piedosas que ele era muito famoso e apreciado num país quente e distante. Ainda que essa história fosse verdadeira, não lhe servia de consolo. Parece que lá os homens eram todos bigodudos, pançudos e com escassos hábitos de higiene, bebiam tequila como se fosse água e comiam chili como se fosse chocolate. Pudera que os tais mariachis também gostassem dele, se eram sujeitos com tamanha falta de chá.
Enfim, sentia-se só.
Estava farto da sua condição de abacate.
Porque não tinha nascido uma pêra suculenta, um pêssego sumarento, uma laranja refrescante, uma maçã tentadora? Enfim, um modesto tremoço que fosse, para fazer as vezes de marisco. Agora um abacate?
Ignorado por todos e cansado da vida, jazia apodrecendo na fruteira, numa esperança infrutífera de que o comessem.
Mas, num dia miraculoso, um cozinheiro imaginativo e meio chanfrado, tão extravagante como um ratinho francês famoso, pegou no pobre furto e resolveu juntá-lo a umas frutinhas elegantes e coloridas. O cozinheiro acabava de inventar mousse de abacate com frutos silvestres.
Ainda que estranhasse o arrojo do cozinheiro maluco, naquele momento sentiu-se o alimento mais feliz do mundo, adornado que estava com aquelas pequenas frutinhas berrantes e espampanantes. Inchou de orgulho.
E, enquanto o cozinheiro o desfazia no passe-vite, o raciocínio já um tanto esfacelado, pensou que a vida afinal valia a pena: num último suspiro liquefeito, o abacate por uma vez não desejou ter nascido outra fruta.
Nem sequer uma manga. Essa que fazia tão feliz uma criança gulosa, os beiços molhados pelo sumo pegajoso.
“O redoengo fitou-o malevolamente, a saliva escorria das suas mandíbulas fortes e ferozes, reluziam os seus enormes e aguçados dentes no reflexo da luz invernosa.”
Mas o que vem a ser um redoengo?
Não sei bem. Uma criatura feroz e má. Qualquer coisa do género do monstro do Alien.
Mas isso é ficção científica. Nem é bem o teu género, pois não?
Não. Só que quero passar para o papel a raiva que estou a sentir contra o meu chefe face à pressão a que tenho sido sujeito nos últimos tempos. Uma atmosfera de terror num quadro de ficção científica pareceu-me um meio adequado para transmitir esse sentimento. Isto tem sido uma seca e não tenho tempo para escrever nada de jeito. Então pensei em aproveitar a onda para escrever qualquer coisa minimamente decente.
Tentemos outra abordagem. Não inventes palavras ou criaturas, para isso já bastou aquela coisa horrorosa do Deniepropeteco. Nada de redoengos. Sê objectivo e directo.
“Estava furioso.”
Muito bem. Nada pode ser mais directo do que isso.
...
E então? Porque esperamos?
Estava furioso com o quê?
Sei lá. Tu é que estás a contar a história. Inventa. Socorre-te das tuas próprias vivências.
"Estava furioso. Odiava-o. E não odiava só a ele. Odiava o mundo inteiro. Seguindo o instinto, foi ao corredor, pegou no machado que estava junto ao extintor de incêndio e desatou a cortar cabeças, não olhando a colegas, através de sucessivos e impiedosos golpes que faziam jorrar golfadas de sangue, cobrindo o escritório de um imenso lago escarlate. "
Isto parece-me demasiado sangrento e violento. É de gosto duvidoso e fará os teus leitores desistir à primeira página. Além disso, como vais superar este começo? Assim, a história nunca terá um clímax. Como conseguirás ter um final mais dramático do que “sucessivos e impiedosos golpes que faziam jorrar golfadas de sangue, cobrindo o escritório de um imenso lago escarlate”? O meu conselho é que comeces de modo mais prudente, menos complexo, e vás elevando o tom à medida que a narrativa se desenrole. E mantém a coisa real. Pega nas tuas experiências e observa o que vês à tua volta.
“Era de manhã.”
Eu disse simples, mas não elementar. Tem de ser simples, mas interessante. Essa frase é apenas simples. Desenvolve. Era de manhã. Conta-nos mais.
“Era uma manhã cinzenta de Inverno."
Está melhor, mas precisamos de mais detalhe e originalidade. Precisas de agarrar o leitor desde o início com as palavras certas, se queres prendê-lo até ao fim de uma história longa.
Isto está a ser muito difícil. E se escrevesse umas tretas para o blog e pronto?
Vá lá, tens de ser persistente, nunca ninguém disse que escrever uma verdadeira história fosse fácil. Ninguém aprende a tocar piano à primeira, é preciso persistência e prática.
Eu sei, mas isto não me está a dar gozo nenhum. Escrever para o blog é muito mais fácil. Escreve-se o que te vem à cabeça e pronto.
Deixa-te de tretas. Aplica-te, preguiçoso. Deixa lá o blog e concentra-te em desenvolver a história. Esta ou outra qualquer que te inspire. Deixa o blog por uns tempos e pratica. Quando a escrita fluir, podes voltar às tuas parvoíces, será bom para desopilar.
Ok.
“De Invernos idos lembro-me das manhãs cinzentas. Manhãs cinzentas como não se fazem mais.
É a memória que me faz tiritar de frio quando penso nos penosos passos que me conduziam, a medo, rompendo o nevoeiro, a caminho da escola.”
Boa imagem. Talvez século XIX em demasia, mas não está mal. Talvez demasiado palavroso, diria eu. Mas é um bom começo. Agora concentra-te, aperfeiçoa e persiste. Não te disperses com o blog nos próximos tempos. Por uma vez, tenta.
O que se passa comigo? Pois, és capaz de ter razão, se calhar ando um bocadinho alheado. Não sei bem, acho que ando preocupado com o trabalho. Sabes, havia uma data de estratégias que me inspiravam na relação com a malta. Agora, nada resulta, tem sido cada um para o seu lado. É a greve dos argumentistas. Raispartóscomunas, pá. O Tony Soprano há que séculos que não me dá uma tirada para pôr os gajos na linha, não posso estar sempre a dizer a mesma coisa, não provoca o mesmo efeito. Como é que eu ponho os tipos na ordem sem a acidez das deixas do Dr. House, pá? Aquilo lá no escritório tem andado ao deus dará.
Achas que o problema não é esse? Porquê? Não tenho sido tão romântico e divertido como antes? O que queres, já me começam a faltar as frases originais com que me declarava apaixonadamente, as pequenas piadas íntimas que te faziam rir. E isso não é nada, querida. Vê lá se os sindicatos se lembram de instigar os sonoplastas a fazer greve? Lá se vai a banda sonora que dava o ritmo à nossa paixão. Ou os directores de fotografia. Se isso acontecer, e não deve faltar muito, como é que fica aquele pôr-do-sol? Esbatido, translúcido, sem graça. E se deflagrar a greve dos duplos, não vamos poder escalar os Himalaias para contemplarmos o mundo a nossos pés. E a greve dos…
O quê? Não, querida, claro que não, não estou a inventar uma desculpa para te dar a tampa, descansa. Há sempre os clássicos. Podem estar um bocadinho gastos, mas caem sempre bem.
E como diria o velho Humphrey, "teremos sempre Fernão Ferro". Pois, tá bem, é Paris, é isso, Paris.
De Invernos idos lembro-me das manhãs cinzentas. Manhãs cinzentas como não se fazem mais.
É a memória que me faz tiritar de frio quando penso nos penosos passos que me conduziam, a medo, rompendo pelo nevoeiro, a caminho da escola.
Antes o padeiro deixava o pão pendurado na porta e trincava-o, ora fumegante, seco e estaladiço e morno, ora molhado na geleia escura. Tomava duche a muito custo e tirava as ramelas dos olhos. Era bom tirar as ramelas dos olhos. A mãe depois enfardava-me em camisolas felpudas, macias, botas pretas, cachecóis, canadianas de lã grossa e empurrava-me, para longe do aconchego. A etiqueta de xadrez que certificava a origem da pura lã escocesa fazia-me sonhar com cavaleiros do Walter Scott.
Parece-me que as roupas eram cinzentas. Não sei se a memória é fiel. Mas tinha uns oito anos e havia qualquer coisa de cinzento em ter-se oito anos em mil novecentos e setenta e nove.
A escola era cercada pela mata e naquele tempo as árvores eram mais altas. Tão altas que a sombra impedia os arbustos de seguir o seu instinto e tornarem-se, naturalmente, verdes. Intimidados pelo breu, pareciam-me melancolicamente negros.
Naquele território plúmbeo, o azevinho tentava-me, oferecendo-me bagas, tão visivelmente escarlates que me feriam o olhar. Dizia-se que eram assim bonitas porque venenosas. Tudo o que luzia parecia perigoso, naquelas manhãs.
Ao longe, ouvia-se o eco do comboio, que, sofregamente, engoliria os sonâmbulos empregados de comércio, de uma penada, pela boca escura do túnel do Rossio.
Todavia, uma vez chegado à escola, abertos os cadernos e trocado o medo pela sofreguidão de aprendiz do mundo, gostava de ver o nevoeiro através dos vidros sujos da sala de aula. O nevoeiro denso e branco, do lado de cá, era luminoso e acolhedor. Parecia guardar todos os males dentro de si, velando por nós.
A Profª Maria do Céu mandava-nos recolher as moribundas folhas do recreio e eram momentos tranquilos. Perguntava de que cor eram as folhas. Colávamo-las nas cartolinas. Gostava de sentir os dedos engelhados pela cola e unidos à força, como a pata de um batráqueo. Gostava do cheiro doce da cola. Havia uns miúdos que, lá fora, gostavam ainda mais, aspiravam-no de copos de plástico que seguravam com as mãos em concha.
Já não gostava tanto, nos meus oito anos, do predicado e do sujeito, dos pretéritos, perfeitos e mais que perfeitos, da tabuada, a álgebra apavorava-me, suplicava à sorte que não me chamassem ao quadro para fazer contas de dividir. Tinha terror das contas de dividir. Mas gostava dos ditados. Gostava de desenhar os arabescos rebuscados daqueles caracteres infantis.
Depois acabava a aulas e regressava a casa, sob o sol do meio-dia que inexoravelmente acabava por vencer a névoa. Ou sob a chuva molha-parvos, que o conduzia lentamente para o bueiro.
No pequeno apartamento, sim, havia cor. Os maples de cornucópias amarelas e grenás, as alcatifas castanhas, os quadros do Botelho, o chocolate a derreter em banho-maria, as gemadas, os pimentos vermelhos a arder nos bicos do fogão, as gravatas berrantes do pai guardadas no armário, o azulejo da casa de banho, o frasco de tinta permanente, os fetos nos vasos da sala, os cravos (ou seriam salgueiros?) na varanda estreita. A preto e branco, só a televisão com os tempos de antena da FRS ou da AD. Mas a televisão transportava-nos lá para fora.
E, lá fora, as manhãs eram cinzentas, os prédios eram escuros, os autocarros de um verde desmaiado, as árvores, despidas. Os transeuntes, pálidos, ensimesmados, flácidos.
Talvez me vestissem de cinzento para me mimetizar com uma época, talvez me quisessem camuflar no nevoeiro, protegendo-me e preparando-me para os cromáticos, pindéricos, excessivos, mágicos anos 80 que aí vinham.
Mas talvez recorde mal.
Um copo de água!
Que lata. O tipo entra no saloon, com pose de duro, olha de lado para a malta como se fosse o Clint Eastwood e aproxima-se lentamente do balcão para pedir, com maus modos, um copo d’água?
- Simples ou com gás? - perguntou o andrajoso barman.
- Com gás! - seguido de uma estrondosa palmada na mesa.
Não podia ser verdade. No meio daquele bando de homicidas, o forasteiro pede água com gás?
- Ah, e quero também um bolicao!
O Paco, mexicano mal encarado que se divertia a assassinar gringos e índios a sangue frio e a rapar-lhes o escalpe, não aguentando mais, levantou-se, indignado:
- Escuta, muchacho, onde julgas que estás? Que raio de pedido foi esse?
-Água e Bolicao. És servido?
- Estás louco, gringo! Manel, serve-me mas é uma coca-cola, que isso é que é bebida de homem! E não quero laites ou zeros, quero a coca-cola original!
E, depois de engolir a coca-cola de penalti, Paco sacou a sua pistola de água e, sem piedade, deu três tiros no forasteiro, que caiu morto no chão do saloon. Feliz com a sua pontaria e sangue-frio, tirou do bolso um cigarro e acendeu-o, pingando o chão com o chocolate derretido.
De volta à normalidade, os cobois das outras mesas voltaram para o caimbs e os sumois de ananás.
Paco, ao sair do bar, foi preso e levado no triciclo do cherife para a esquadra mais próxima, feita de Lego.

nasal hair problem
Originally uploaded by John (B)
Irrompeu-se-me este trocadilho fácil com o seu púdico (mas razoável) comentário. Mas eu páro já com a pogonologia, prezado MCP. Ainda que me pareça um assunto fascinante.
Read more...Meu caro JB, pois eu cá acho que um homem sabe estar acabado, outrossim, quando, barbeando-se ao espelho, considera, pela primeira vez, desviar a lâmina Gilette do seu percurso quotidiano de modo a ceifar aquele surpreendente e jovem pêlo nasal. E mais certo fica do termo do seu masculino apogeu quando o dito, moqueando do ridículo esforço de recuperação da perdida viçosidade juvenil, recrudesce, mais moçoilo,mais irrequieto, mais grosso, mais pimpão e ainda mais oblíquo, umas poucas manhãs depois.
Read more...
Folheei o livro e pareceu-me interessante. Intrigou-me que o Umberto se tivesse lembrado de escrever uma biografia do nosso Presidente da República, mas afinal o material é mais abstracto.
Aproveitando sofregamente os últimos 15 dias em que se pode matar o vício no estaminé, fui à cafetaria injectar nicotina. Quando regressei, tinha este poster pendurado, recordando o saudoso Justiceiro, embelezando o meu posto de trabalho. Uns queridos, hmm, estes colegas, hmm.
Tinha tanto medo do fracasso que, determinado, entornou o sonho, libertando-o, cano abaixo.
Read more...-10º logo à noite.
Pode ser que o Luís Filipe e o Dí María apanhem uma pneumonia.
Pode ser que as radiações de Chernobyl transformem o pé direito do Cardozo num segundo pé esquerdo.
E que o David Luiz e o Luisão neutralizem a Maria Amélia.
Se, como é provável, nada disto acontecer, lá ficamos a disputar o acesso à Liga dos Campeões do ano que vem com o Vitória de Guimarães.
Na festa de aniversário da velha Pergunta Sincera, último exemplar vivo de uma espécie em vias de extinção, a sala de interrogatórios foi bombardeada por muitas perguntas, embora tantas outras tenham ficado no ar. Entre elas, a própria Pergunta Sincera, que, para surpresa das restantes, não compareceu.
Para quebrar o silêncio, e porque não tinha nada a perder, a Pergunta Redundante chegou-se à frente para fazer um oco e interminável discurso de comenda. Como se não bastasse a verborreia da Pergunta Redundante para distrair as atenções, estavam tantas Perguntas Indiscretas na ocasião que as outras não conseguiram ouvir quase nada do discurso.
Felizmente, uma intrusa, a Resposta Categórica, dando um urro e um murro na mesa, de uma penada calou as irrequietas Perguntas Indiscretas, impondo a solenidade que o ocasião exigia.
Aproveitando-se do momentâneo silêncio, a Pergunta Intrigante insidiosamente sibilou aos ouvidos das suas comadres, as Questões Mais Frequentes:
“Olhem lá, aqui entre nós, vocês nunca desconfiaram da relação entre a Pergunta Sincera e a Pergunta Especulativa?”
“Entre a Pergunta Sincera e essa milionária?”, retorquiram, em tom de virgem arrependida, as Questões Mais Frequentes.
Enojada com a infame insinuação, a Resposta Evasiva deu rapidamente à sola.
Mas com tanta Questão Mais Frequente presente, depressa o boato cresceu e chegou aos ouvidos das Perguntas dos Leitores, que trataram de o fazer chegar à imprensa escrita.
Ainda assim, houve uma minoria que desconfiou do rumor, como a Pergunta Lógica, que quis saber porque carga de água precisaria a Pergunta Especulativa da Pergunta Sincera.
Ao que a Pergunta-que-Traz-Água-no-Bico retorquiu, entre dentes, se a questão fundamental não seria a inversa.
De pergunta em pergunta, lá se foi esquecendo o motivo desta história toda.
Numa última tentativa, tentando colocar os pontos nos ii, a Pergunta Difícil questionou os presentes se sabiam a razão da ausência da última Pergunta Sincera.
Deste modo, uma homenagem falhada transformou-se num feliz evento, pois tinha vindo ao mundo uma recém-nascida. A Pergunta Sem Resposta.
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