29 de fevereiro de 2008

Aníbal de Lampreia


Foto tirada daqui
Indo eu, indo eu, a caminho de Viseu, decido fazer um desvio do itinerário principal, pois que o estômago dava horas.
Era uma pacata vila de província. Penacova, de seu nome, uma varanda debruçada sobre o Mondego. De cognome, a Capital da Lampreia. Está inserida numa vasta zona de interesse turístico, pertence ao distrito de Coimbra, sita na Região Centro (NUT II) e na sub-região do Baixo Mondego. Penacova é um concelho de segunda ordem, comarca e concelho fiscal de terceira ordem, pertence ao Distrito, Relação e Bispado de Coimbra. Para além disto, informa-nos utilmente a página do Município de Penacova, que, em termos de diversidade de produtos, Penacova tem actualmente uma diversidade turística capaz de satisfazer as diversas procuras. Ele é “a água límpida dos trechos não poluídos do Mondego e do Alva, correndo em curvas caprichosas entre montes escarpados, faculta ao turista a tranquilidade e a harmonia de uma paisagem primitiva”. Ele é “as estradas pitorescas, ora talhadas nas escarpas sobre o rio, ora trepando ao cimo dos montes, onde poderá apreciar belos panoramas do alto dos seus mirantes”. E como se não bastasse, “a oferta não se fica por aqui. Novos produtos começam hoje a apresentar-se como apostas viáveis nomeadamente o turismo de aventura e o produto gastronomia e o segmento de fins-de-semana”.

Como a barriga vazia é má conselheira, fizemos ouvidos moucos desta panóplia de atractivos com que a Princesa do Mondego nos queria brindar. O que queríamos mesmo era merendar. Passava bem das 3 da tarde e receávamos o pior. Apetecia-nos um almoço farto, campestre, castiço, substantivo. Espreitámos o Panorâmico, a crême-de-la-crême dos estabelecimentos restaurativos locais. Sumptuosa a vista que se avista da sala envidraçada, o Mondego correndo arisco lá em baixo por entre veredas.

Apenas uma das bem atoalhadas mesas se encontrava ocupada, quatro respeitáveis autarcas locais ou candidatos à cuja dita em amena cavaqueira bebericavam a sua macieirazinha digestiva e galhofavam por entre palitos escrutinadores.

Cenário castiço, sem menor dúvida, mas não era bem para o que estávamos virados. Excursionistas citadinos, buscávamos mesa mais modesta, mas autêntica.

Voltámos atrás e dirigimo-nos ao largo da Câmara, verdadeira sala de visitas do hospitaleiro cidadão penacovense. Não era muita a azáfama, pois que é terra de gente séria e laboriosa e não era hora de laréu.

Avistámos um agente da autoridade e antevimos nele a nossa salvação. Aí estava a nossa réplica do bobby, desprovido é certo da britânica fleuma, mas aprovisionado de uma hospitalidade informal só ao alcance de um GuêNêErre genuíno.

Sem trânsito para fazer circular, altercações da ordem pública para resolver, gatunos a perseguir ou sequer ocorrências de que tomar conta (que ao menos ocupassem o cérebro e o indicador num escrupuloso escrutínio da tecla correcta, de entre a complicada floresta de azert da vetusta e única máquina de escrever do posto), parecia tranquilo da vida, contente do seu ofício. Havia no desmazelo com que vestia a farda uma tranquilidade que só os anos de um labor pacato poderiam imprimir. O boné irreverente resvalava teimoso para a fronte, de tal modo que deixava à vista apenas uma pequeníssima fresta da luzidia testa. A camisa, ainda que bem engomada, estava apertada por uns precários esforçados botões que a muito custo desempenhavam a sua função: conter dentro das vestes oficiais o mui-proeminente ventre do Cabo Almeida, de molde a não beliscar o aprumo da corporação. Por entre os botões, entrevia-se a protectora camisola interior, que lá para aquelas bandas faz um frio que até se ouve. Coçava os seus fartos e dignos bigodes para entreter a mão direita, entretida que estava a mente pensando na morte da bezerra. A mão esquerda, pois apoiava-se no revólver ancião, felizmente guardado para sempre no coldre de couro coçado.

Inquirido pelos turistas alfacinhas sobre o paradeiro de uma casa digna onde se pudesse pastar àquela hora, o Cabo Almeida, no xeu xotaque de probínxia, prestável e amavelmente informou os doutores da xidade que bem ali perto habia o Panorâmico.

Que é bom, ficam os senhores bem serbidos. Mas aqui entre nós”, dixe entre dentes enquanto esfregava o indicador no polegar anafado, “é fino, mas carrega, xe carrega”.

Ah, sim, nós esse conhecemos, mas queríamos assim uma coisa mais típica, mais autêntica, não queríamos nada de pretensioso, simplesmente queríamos uma casa onde se comesse bem.

Depois de nos zurzir com uma interminável sequência de indicações restaurativas que nos ficavam bem ali à mão de semear, recomendou-nos um “estabeleximentojito que não é nada de muito jeitoso para a bista, mas lá come-xe bem e com fartura".

Os xenhores boltam a apanhar a estrada nacional, xaem ali na xaída da Livraria do Mondego e biram para a Raiba”. O Porto da Raiva.

Aí encontram o Boa Biagem, em termos de comer não há comparaxão. Lá é tudo à confiança. Eu costumo ir lá com a família e os colegas. O comer é daqui”, e esfregou o lóbulo da orelha peluda entre o mesmo indicador e o tal anafado polegar, em jeito de explicação da proveniência do comer.

E olhem, Aníbal de Lampreia, é o númaro um”.

Aníbal? Aníbal de Lampreia?

Pois, a nível de lampreia é o número um.

Lá fomos ao Porto da Raiva, pequeno aglomerado de maisons de emigrantes encastradas no penedio esculpido pelo rio, onde nos deliciámos com uns rojões com batata cozida e pão mal cozido no forno de lenha, tudo servido àquela hora tardia por consideração aos senhores (pareceu-me ouvir a empregada para a cozinheira, “oh fulana, faz lá os rojões, olha-me para o carro dos senhores ”, mas provavelmente foi reflexo do meu urbano cinismo). Até nos abriram a sala de refeições do primeiro andar, que lá estávamos “mais à bontade do que no snack-bar”.

O leitor que aprecie lampreia, já sabe, Aníbal da cuja dita, não há como o Boa Biagem na Raiba. Se não for apreciador, não se apoquente, porque lá todo o comer é daqui. À confiança.

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