19 de Novembro de 2009
12 de Outubro de 2009
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Escrevo porque escrevendo me conheço ou escrevo porque escrevendo me reinvento. Escrevo porque escrever é uma terapia. Escrevo porque na escrita estabeleço ligações submetidas a anárquicas leis internas, leis que não se submetem à filosofia, não se vergam à matemática, não se prostram sequer aos ditames da própria vida. Escrevo porque quero que me queiram. E por aí fora.
Todas as razões ou pretextos ou justificações são verdadeiros, tanto quanto falsos. A verdade é que o impulso da escrita é um mistério. A verdade é que sobreviveria perfeitamente sem escrever.
O que não suporto é querer fazer alquimia e não o conseguir. Transformar a ideia na palavra. Esta angústia, a angústia da busca da palavra exacta, tem-me assaltado amiúde. Para lá do tolerável. Será por isso? Ou por preguiça ou por inépcia ou por desinspiração ou por ciúme do Veronesi, do Eça, do Bolaño, do Agualusa, do Coetzee, para, de entre verdadeiros escritores, mencionar apenas os que me maravilharam nos últimos tempos. Ou porque atravesso um bom momento ou tenho outros projectos ou tenho menos tempo.
Talvez sim, talvez nim, talvez não. A verdade é que uma causa ou pretexto ou justificação para a falta de vontade de escrever (pelo menos neste suporte) será verdadeira, na mesma medida em que será falsa.
A verdade é que a falta de vontade de escrever é também um mistério. Por ora, não me apetece. Até breve ou até sempre. Obrigado.
30 de Setembro de 2009
Estava para inventar uma posta sobre o Ricardo Araújo Pereira, que reputo do melhor comentador político do país. De como, apesar de considerar o Ricardo Araújo Pereira o melhor comentador do país, me parecia que ele, tendo merecidamente ganho o estatuto de figura mediática, para usar essa horrenda e tremenda expressão dos tempos que correm, se aproveitava, ainda assim, desse merecido estatuto. De facto, como foi possível ter feito, minutos depois da comunicação cavacal ao país, tão límpida, seca, depurada (e nem por isso menos brilhante) súmula do que Presidente-antes-disto-de-todos-nós-e-depois-desta-esquizofrenia-mirabolante-vá-se-lá-saber-de-quem, comunicou. Queria fazer uma crónica sobre uma crónica, antes do mais marcadamente políticas. Com uma piadinha pelo meio para aligeirar, do género de se o RAP teve tanta piada em tão pouco tempo depois do discurso do cavaco, é porque, das 2 uma, o discurso do cavaco era previsível (admito que para tipos mais inteligentes do que eu assim fosse), ou porque o RAP é... amigo do SIS.
Estava com achaques de fazer esta crónica. Mas perdi quaisquer achaques. Sobre este post ou sobre qualquer outro. Amanhã explico porquê, a quem se importe. Neste momento, perdi achaques de explicar porque perdi os achaques.
19 de Setembro de 2009
Retalho da vida de um consultor que às sextas à noite queria ser incógnito
Quando, à porta do melhor clube do mundo e arredores, nem preciso de trespassar (à melhor socapa) a longa enguia de corpos tensos e faces maquilhadas de deslumbramento de estreia noctívaga, todos tensa mas ordeiramente alinhados uns por cima dos outros , quando o rapaz (que asseguro portar, parece que há séculos, o mais elegante bigode da noite lisboeta), (aquele que por aí diz dar ares a um certo d’Artagnan), quando, pois, esse (perpétuo) rapaz rompe a cobra juvenil que se estende dos poiais de são bento até, pelo menos, ao silo do combro, quando abre os braços esbracejantes, gerindo, com saber de quem sabe, o seu próprio silêncio, na expectativa, pelo seu gesto inaudito, quase divino, que a expectativa atinja o ponto de ebulição, quando com tais gestos misteriosos de gato silencioso e de fino bigode, silencia a imberbe multidão, quando a esguia e tenra turba está incrédula e curiosa e deslumbrada e obediente e muda perante aqueles braços autoritários, quando eu estou ainda mais incrédulo e curioso e envergonhado e desconfiado quando começo a suspeitar que os gestos circulares dos teatrais braços podem (será mesmo?) ser dirigidos na minha direcção, quando os braços do porteiro do melhor clube do mundo e arredores descem, desenhando uma desusada mas elegante vénia, quando o sósia do Quarto Mosqueteiro, no ponto de cozedura da expectativa, (fitando-me cara a cara, para que não restassem dúvidas),
clama,
apregoa,
vocifera,
bradeja,
urra,
ordena:
“Abram alas,
Putalhada!
ABRAM ALAS ao VETERANO!”
Quando o impossível sucede, eis que , quiçá, terá chegado o momento de me questionar se, não é?, não é chegada a hora de pôr em consideração a hipótese de, talvez, guardar para sempre os all star na gaveta, dar um perene nó à gravata e tocar a rebate, pensando nos frutos suculentos que a idade madura me proporcionará.
E tocar a fingir que a vida é uma coisa séria.
E depois, entrado, passa isto e volta tudo, claro está, ao ponto de partida.
O gingar que veio do frio
http://www.youtube.com/watch?v=xj14EaDOQQ8
Música para escrever.
28 de Agosto de 2009
Um
“UM! “, berrava o gordo, “DOIS!”, pesado, “TRÊS”, rouco, como um cabo passando a revista, “QUATRO”, espantado como se nunca tivesse posto a vista em cima do carro coberto de poeira, “CINCO!”, lívido por lhe teimarem em ocupar o território de macadame, “SEIS!”, o gordo, descendo a rua à beira do passeio, contava, indignado, mais um paquiderme de aço estacionado no passeio, “Sete…” e a repetida competência das suas contas de somar (que não a monotonia da auto-atribuída tarefa), já lhe afrouxava o timbre, “oito…”, quase derrotado por tanta aritmética, “nove” e quem se desse ao trabalho de o observar não saberia se fazia contas aos invasores estacionados naquela rua do bairro da Ajuda ou se os próprios passos arrastando a camisa azul que se desfraldava por sobre os jeans que, assim tão largos, o não faziam mais novo, mas nem por isso deixava de, mais tímida mas ainda assim decidamente, fazer saber à vizinhança que aquele BMW preto reluzente parqueado em frente ao vinte e oito da calçada era para ele o usurpador número “nove”, mas esmorecia já, e baralhava-se, e ao fiat que se lhe seguia nomearia, talvez só para variar, “cinquenta e um!”, não se dera o acaso de um sujeito, anonimamente protegido pela s alturas de um terceiro andar com marquise, gritar, talvez só para fazer pirraça ao tolinho anafado, precisamente, lá está, “cinquenta e um!”, por acasos que a ciência estatística declararia curiosas, mas pouco impressionantes, dada a irrelevância da amostra, pelo que o gordo retomou o fio à meada, e, de orgulho ferido, mirou com inusitado introspecção analítica o fiat (croma azul matriculado nos idos de noventa e oito, para quem cuide de detalhes estatísticos), e solenemente, bradou, como se estivesse sob juramento de bandeira, “DEZ!!!”, em vez de cinquenta e um, como esteve para proferir e como o sujeito coberto de anonimato de marquise decerto pretendia, e por isso mesmo, só por pirraça para o seu amado inimigo das alturas, o não fez. Eis senão quando o gordo de camisa hasteada aos ventos, já se preparando para, com ânimo recuperado, etiquetar o intruso citroën saxo branco (este pouco reluzente) de “ONZE!”, ao mesmo passo que o sujeito elevadamente anónimo se aprestava para reincidir num destemido e por fim certeiramente baralhante “CINQUENTA E DOIS!!”, o inesperado aconteceu, de tal modo inesperado que deu tréguas àquela batalha combatida por armas de arremesso construídas em material numérico absurdo, de molde que o gordo desfraldado e o anónimo voador se calaram quando, surpreendidos, observaram que por eles passava um louco, sim, um louco, equipado a rigor de louco, portando calças negras tão impermeáveis que se diriam feitas de plástico, um colete negro acetinado, decorado com incandescentes (pelo menos a contra-luz) reflectores verdes, um almeida-louco, portanto, que corria à brida toda a rua abaixo, sem reparar, quanto mais colher, o caixote-do-lixo número um, dois, três ,quatro e por aí seguiria uma conta de somar, houvesse mais caixotes-do-lixo naquela curta rua da Ajuda e houvesse um tolinho que os contasse. O gordo, curioso, parou de contabilizar os efectivos do exército invasor e, tomado de súbitas ânsias, foi em penoso encalço do almeida-louco, ao mesmo passo que o vizinho das alturas se aprestava para sair do armário de varandae a toda a brida descia à terra pelas escadas escuras de madeira carunchosa gasta por tantas solas, e todos se encontraram, num encontro estatiscamente quase impossível, não fora a irrelevância daquele universo estatístico de um trio improvável, descendo a rua, a passo de chita, o almeida liderando, o gordo perseguindo, o aéreo completando. Até que, ao cabo da curta artéria daquele bairro da Ajuda, o trio estacou, cortado o passo por uma amarela fita reluzente, impregnada de uns pós-modernos dizeres: “Polícia, não trespassar”.
Read more...18 de Julho de 2009
2 de Julho de 2009
Retalho
“Ruço, faleceu ontem Rita, vítima doença prolongada. Achei justo saberes. Enterro amanhã. Sentidos pêsames. Raimundo.”
A mulher com quem havia passado uma vida, passara-se há quinze dias e Romeu Fulano saía com o casaco de linho e o bigode ralo em direção ao Mosteiro de São Vicente, porque sim, todo o santo dia, indiferente aos elementos ou circunstâncias. A namorada de quem nada sabia há uma vida, passara-se há um dia, e o Ruço não mais retomava o passo.
14 de Junho de 2009
Máxima
(foto copyright by rita andorinho)
E foi nesse preciso momento, em que, num quarto de um hotel, umas mãos carregadas a abanavam de modo a que ela própria, Máxima, por sua vez retomasse o fio à meada, que esta se deu conta que havia chegado o momento em que os seus filhos (se os houvesse) a poderiam, por sua vez, tratar por: Velha.
23 de Maio de 2009
Retalho
Faz - mais coisa, menos coisa - dois anos que me vi encostada ao canto de um bar de esquina, sito no Bairro Alto, em Lisboa, de seu nome o Bar da Esquina.
Mais tarde, vim a descobrir, por recônditas informações segredadas por discretos habitués de meia-idade que fui entretanto paulatinamente conhecendo, usando, como uma gazua a minha escandinava estampa metro e noventa, que tal bar de esquina, batizado “O” Bar da Esquina, teria em tempos usado, e com maior propriedade, como em breve concordarás, outra marca de fantasia: a Casa de Loucos.
A artéria onde se quedava o tal estabelecimento comercial trazia com orgulho, pregado à lapela, um nobre apelido, que se afigurava promissor, à luz do guia turístico que da Escandinávia tinha trazido como única bagagem de cabine no voo TP 0507 (Oslo-Lisboa): rua da barroca, mas que, lá chegada ao vivo e a cores, nada tinha de barroca, aparente contradição que, passados (mais coisa, menos coisa), dois anos, hoje faz toda a lógica, neste melancólico país meridional situado à margem de lugar algum.
Justiça será feita se confessar que lá fui parar por causa de uma casa de banho (àquela casa de loucos que é o bar da esquina).
Repara, as casas de banho dos estabelecimentos hoteleiros /de restauração em Portugal não são, longe disso, todas iguais. A da casa de fados a que o mencionado guia me atraíra como armadilha bem armada, parece-me que se chamava “Faia”, não a cheguei a conhecer, posto a enorme bicha à porta da dita. Que importa, os detalhes não são importantes, mas variam, crê, de uma escala que vem do mais básico e alcança - quase alcança em casos raros – o civilizado.
Pormenor a não desprezar naquele preciso momento de estado-de-necessidade, a da casa de esquina, ou bar de loucos, não estava emperrada por uma fila, ou bicha, de desesperadas senhoras meridionais falando alto ao telemóvel, procurando camuflar com ondas hertzianas o embaraço de partilha da sua mais profunda intimidade com uma vizinha de acaso, e de um acaso tão confrangedoramente físico.
Já os redutos sanitários dos loucos daquela casa de esquina onde me vi encostada a um canto há (mais coisa, menos coisa) dois anos, tinham, detalhe que vale a pena reter (nem que seja como justificação a posteriori da escolha de vida que aleatoriamente de aí em diante prossegui), um vazio absoluto de qualquer fila e, para mais, pormenor que nada acrescentava quanto à motivação primordial, mas que não deixava de se revelar com simpatia, quedava-se no rés-do-chão, sem que tivesse de superar dez metros obstáculos de degraus inclinados a 90º que arquitetos sem escrúpulos utilitários planearam para dizimar a classe dos-tipos-que-estão-a-tal-ponto embriagados que mais vale metê-los porta-fora.
Infelizmente, como verás com os teus próprios olhos se algum dia tomares o voo TP 0507 (Oslo-Lisboa), os proprietários deste tipo de estabelecimento comercial desapreciam, e dir-se-ia com especial embirração, o uso indiscriminado e sem contrapartida remuneratória, de tais facilidades, ainda que, no fim do dia, nunca cobrem por tal uso. Avisado pelo tal guia turístico que havia aportado à lusitânia como única bagagem-de-mão e único consolo, pedi ao balcão, pois, e porque em Lisboa sê lisboeta, um reconfortante moskovskaya com água tónica servida à parte, mesmo antes de me dirigir às facilities.
E foi nesse momento, ao pousar a vodka que me havia o bonito e homossexual barman servido, que a conheci.
E foi, acho que foi isso, sim, foi naqueles olhos que me perdi.
22 de Maio de 2009
18 de Maio de 2009
Aos senhores leitores...

... pedimos desculpa por esta interrupção, a cujos motivos somos totalmente alheios. A emissão será retomada logo que possível.
7 de Maio de 2009
A Velha
Amansada pelo caldo verde que a Velha, como todas noites, servira como ceia, chegava a hora mágica em que fazia as pazes com o dia.
A Velha sentava-se no cadeirão de palha e pregava à lareira, beijando de quando em vez o crucifixo, que segurava com força entre as mãos rugosas, pintalgadas de manchas castanhas que a Pequena percorria como se fossem misteriosos continentes desenhados num mapa de outro mundo.
Orar terços, rezar novenas, rogar aos santos que a acudissem, parecia ser mister único da Velha. Fazia-o ora com aparente indiferença, ora num fervor de contorcionista, que fazia bailar o longo xaile negro que sempre trazia vestido e que parecia conduzi-la ao centro do universo. A Pequena habituara-se de tal modo àquela ladainha, que, se deixava de a ouvir, receava que a Velha se desfizesse em pedaços, temendo que a lengalenga fosse a argamassa que juntava as peças frágeis daquele corpo mirrado.
A oração era a companhia da Velha e a Pequena abrigava-se no casulo protector da litania.
Tirando as orações, pouco mais a Velha dizia. Mas, terminada a ceia e despachadas as últimas novenas, a Pequena pousva a nuca no colo da Velha e os rostos de ambas brilhavam com os seus relatos. Era a essa hora que a Velha escutava atentamente o que a Pequena lhe tinha para contar. Invariavelmente, eram sonhos, pois que a Pequena, mesmo se desperta, vivia sempre noutros mundos. A Velha nunca a contrariava, por mais estapafúrdios que os relatos fossem, ouvia-a num silêncio a meio caminho entre a atenção e a condescendência, como se imitasse o Padre Vasco que tantas vezes a ouvia em confissão.
Certa noite, com a inocência que ainda não perdera pelos meandros da vida, a Pequena perguntou-lhe:
“Avó, os sonhos tornam-se realidade?”
A Velha pensou por longos momentos. O silêncio sufocou a Pequena como um manto grosso e, à medida que aquele tempo despido de sentido se arrastava sem que a Velha dissesse ai nem ui, a Pequena, de simplesmente curiosa, ficou receosa, com uma expectativa sobre o que aí viria que lhe dava um nó na garganta. Seria aquela uma pergunta proibida? Virou lentamente o pescoço e observou a Velha, à cata de uma pista que decifrasse o mistério. Os sulcos que percorriam aquele rosto retalhado em rugas mostravam ponderação, em vez de indecisão ou arrelia. A pequena acalmou e acabou por sossegar de vez com o sorriso que a Velha lhe dirigiu, como se finalmente se tivesse decidido. Com vagar, retorquiu-lhe as palavras que agora, naquele frio quarto de estalagem, lhe voltavam à memória, como um aviso:
“Queres saber se os teus sonhos se tornam realidade, Máxima? Sim, se não os partires.”
“E como os posso partir?”
“Se te agarrares a eles com muita força.”
1 de Maio de 2009
Máxima
(Cont.)
Máxima não quer pensar e por isso mesmo foca a atenção nos detalhes: faz uma pausa para recuperar o fôlego que é preciso para se chegar de mansinho à realidade, não o quer fazer de rompante, não quer simplesmente abrir os olhos: ganha tempo com os outros sentidos: sente as suas costas amainadas por uma inusitada camisa de noite, feita de sedas que a sua bolsa jamais alcançaria; um tecido feito de pudor, leve, diáfano, de um cobre quase celeste, que não vê ainda, e ainda não quer ver, mas imagina, um vestido de uma sedução paradoxalmente angelical, que não combina com ela; sente-se nele como um peixe fora de água; e depois o olfacto: há uma pureza de água de nascente que lhe conspurca as narinas, como se as mil lavagens dos esticados lençóis de linho conspirassem contra a sua modéstia original, desnudando-a, em vez de a camuflar, na sua simplicidade amorfa; chilreiam os pássaros, lá fora, numa cadência rítmica de que jamais se havia apercebido; e tudo isto é insultuoso, tudo isto a induz à deriva, tudo neste hotel de província, para ela de um luxo que os olhos de um cidadão urbano desdenhariam, põe Máxima no seu lugar; sente um peso que a esmaga, e ainda não teve o arrojo de abrir os olhos. O Diabo te carregue, Máxima, está-se nas tintas, e decide-se. Abre-os. E vê dois pontos pequenos, escuros como a noite, que se alargam à medida que a sua íris tenta focar, debalde, não há nada que foque a esta curta distância, dois pontos negros desrespeitam os limites toleráveis da intimidade, dois olhos vítreos tomam-na de assalto, e ela recua e cerra-os de novo, e umas mãos poderosas arranham-lhe o dorso por sobre a seda, e ela sente-se comprimida em toda esta pressão, a cada instante mais pequena, a cada instante mais desprovida de sentido. Meu amor, o que se passou, sussuram-lhe com hálito cálido ao ouvido, são estas palavras, ainda antes das imagens, com que Máxima cai em si. Caindo em si, Máxima quer sair dali para fora. As unhas de uma força e decisão grotescas dilaceram-na em excitação e ela numa luta vã, numa luta brava. Meu amor, o que se passou, mas meu amor, fica lá quieta, está bem? E Máxima quer ficar quieta, porque Máxima não quer abrir os olhos, porque Máxima quer ser desafectada, descomplicada, não quer despertar, porque Máxima não quer sonhar, não há direito: a sonhar. Mas é nessa recusa, é nesse cosmos pardo feito de olhos cerrados, feito de denegação, que a imagem da Velha lhe aparece.
(cont.)
28 de Abril de 2009
16 de Abril de 2009
Máxima
imagem saqueada daqui
8 de Abril de 2009
Last minute sale
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27 de Março de 2009
Máxima
Mal toma consciência de que a chamam, Máxima deixa o pinheiro para trás e desata a correr com ímpeto de pavor. A mata é espessa e Máxima pouco enxerga naquela neblina, arranha-se por silvas, azevinhos e giestas, desvia-se de pinheiros, carvalhos e vidoeiros, tropeça em calhaus de quartzo, escorrega em camadas de caruma, ouve (ou pensa ouvir) o bater das asas de uns corvos tomados do mesmo pânico, Máxima é um animal acossado numa fuga que vale a vida. Debalde: a voz cava teima em fazer-se ouvir: Máxima, Máxima!
Não olha para trás, continua a correr sem destino, bem sabe que as forças lhe vão acabar, os pulmões são foles furados, as pernas bigornas, o cabelo é vime que lhe atrapalha os olhos, o pescoço uma camurça húmida de transpiração e a voz, sempre a voz, sopra-lhe nos ouvidos um bafo quente: Máxima, Máxima.
Sente uma bofetada no rosto e pára, estaca sem que o tivesse ordenado aos membros. A cara arde-lhe como uma febre. O nevoeiro dissipa-se e Máxima apercebe-se que não se encontra em bosque algum, mas deitada numa cama, a sua cama.
“Máxima, Máxima!! O que tens?”
“Nada. Não tenho nada.”
(Cont.)
25 de Março de 2009
12 de Março de 2009
Máxima
Foto saqueada, uma vez mais, daqui. Este retalho é continuação deste retalho.
As vozes? A voz. Aqueles eram sons de uma só alma. Um monólogo. Um chamamento. A princípio, não quis acreditar. Mas a voz rouca estava já demasiado próxima para que Máxima pudesse recusar ouvir o que dizia.
“Máxima!”. “Máxima!”.
10 de Março de 2009
2 de Março de 2009
Retalho
Quarenta anos tinham passado desde que ali arribara e Joaquim teimava em não morrer de amores por Lisboa. Isto é lá lugar para namoros, era a resposta que Amália aturava do estafermo do marido sempre que lhe pedia para a levar a arejar. É que da cidade Joaquim pouco mais conhecia do que os nomes das ruas que a furgonete atravessava pachorrenta nas madrugadas sonâmbulas, da casa nos arrabaldes até ao mercado, junto ao Tejo. Mas ali sim, sentia-se em casa, como que num romaria virtual às suas origens. Se algum amigo lho perguntasse, não saberia nunca explicá-lo, que era homem de escasso vocabulário e pouco dado às subtilezas da metafísica (e, de qualquer modo, era sujeito de poucos amigos e nenhum deles sequer particularmente curioso, quanto mais dado às mariquices da especulação filosófica), mas sentia-o, isso sem dúvida, pois que, longe de ser sentimental, não deixava de ter vindo ao mundo provido da sensibilidade própria de quem nasce orgulhosamente campónio: para ele, nada como os víveres preparados pelas mãos instruídas de mulheres fortes, carrinhos de mão onde um mundo inteiro cabia, oleados deixando entrever um repolho aqui, um molho de cebolas ali, um cesto de pão fumegante abrindo apetites, o odor azedo de queijos cortados à navalha por dedos sujos de trabalho, chegava mesmo a comover-se com o vôo dos sacos de plástico flutuando a meia altura no mercado, pareciam-lhe, perdoe-se-lhe a rudeza da imagem, aves de rapina sustentadas no ar quente, aquecido a fritos, cozeduras e sudações laborais. Gostava do perfume do pé-de-salsa, do ruído dos jornais da véspera embrulhando os jaquinzinhos, sorria dos resmungos do louco residente, compartilhava as gargalhadas do talhante, compadecia-se, com sobranceria máscula, das inocentes zaragatas das comadres peixeiras, invejava a destre cantilena fadista dos ciganos que protestavam contra a infame prepotência do fiscal que lhes passava mais uma multa pela ausência de licença, encantava-se com os desenhos das escamas do peixe debulhado decorando de neve salgada o pavimento do recinto, enternecia-se com o amuo das crianças arrastadas pelas mães-freguesas, participava na tagarelice das velhotas da hortaliça, pilhava com parcimónia os escaparates das azeitonas gordas, galhofava dos pimentos convidando ao deboche, dialogava com os olhos redondos do besugo perguntando ao que tinha vindo, identificava-se com o coração mole da couve-flor, rebatia argumentos com peritos de trazer por casa sobre os mistérios da maturidade do melão, excitava-se, enfim, com o alvoroço permanente daquela bolsa de valores à escala humana. Até que uns anjos vestidos de bata e munidos de amoníaco esterilizavam a grande loja e tudo permanecia na obscuridade até à próxima alvorada. Mas até à hora da limpeza geral, ainda que o chão estivesse sujo e fedorento, o ar perfumava-se com o incenso dos sumarentos limões, da dourada canela, dos rijos camarões, dos fumegantes papos-secos, dos frescos coentros, do robusto queijo da serra. Aquilo, para Joaquim, era um concentrado de vida.
Read more...26 de Fevereiro de 2009
19 de Fevereiro de 2009
Retalho
Uma nuvem manhosa surpreendeu-os no caminho, deixando que o sol os vigiasse por detrás da espessura, a espaços. O cavalo de ferro relinchava, as rodas queixavam-se dando golpes como coices, como se de súbito os seus mecanismos tivessem produzido um artificial instinto de sobrevivência e se quisesse libertar das rédeas do motard inconsciente que o lançava a toda a brida, disparada como um projéctil furioso pelas estradas de Monsanto. Quente, imóvel, sonolento no bafo, o bosque, revelado às claras, apavorava-a, como se a luz do dia concretizasse os pinheiros, eucaliptos, amendoeiras e demais obstáculos verticais que, na obscuridade, ela evitava com imprudência ágil, obedecendo ao pulso firme do dono. O motard conduzia-o por uma curva longa, o dorso quase raspando o asfalto, e enfiava-a agora pela descida até ao grande viaduto. Não oiço nada, pensava, só o cantar agudo dos pneus, não sinto nada, só a vibração dos metais, em ziguezague serpenteio entre veículos, carro após carro após carro, o vento esbofeteia-me a cara, o peito comprimido contra o ar feito uma muralha, o rosto é plasticina contorcida, vejo o meu caminho, encolho os traços que pintam as bermas da estrada e transformo-os numa linha só, carros e camiões, navego-os como uma bala, pneus, ligas leves, os espelhos revelam sombras de rostos assustados deixados para trás, desvio-me desses elefantes com rodados longos no lugar de patas que me passam ao lado, galgo esta curva e vou galgar a próxima, cada vez mais depressa, o motor quente quer voar, o meu cavalo de ferro, borracha e combustível dá um salto levantando a dianteira, o guincho, a borracha queimada entra-me nas narinas, é uma droga, é uma doga que acelera pulsações, o coração bombeia fluidos, sangue e seiva e adrenalina, ritmo sincopado com pistões e válvulas, um coração nervoso que bombeia e bombeia e bombeia, e passo este gajo e agora o próximo, e passo o vento e passo os pássaros e tubarões prateados e cães atravessados no caminho, e as figuras e os rostos e os corpos, e assim não sinto mais nada, e nesta vertigem não penso em mais nada, e nesta vertigem não penso no que ficou por te dizer, que devia tê-lo dito mas estava bêbado da tua beleza, que a minha pele tem memória das tuas mãos que nunca me tocaram, está impregnada do perfume que só ao de leve senti, que o meu tacto sente as tuas vibrações, que as tuas conquistas são as minhas derrotas, cada encontro com a Lisboa em penumbra está marcada pelos teus restos e rastos, por tua causa amo agora Lisboa como quem ama uma mulher de rosto desfigurado, tudo em mim é compostura, compostura, compostura e medo, devia ter-to dito, é um crime não to ter dito, é um crime não te ter falado dos diamantes que nadam nos teus olhos, esses olhos pardos que em plena ausência me atormentarão todos os meus dias, devia ter-te dito que, longe de ti, tu e os teus olhos cinzentos serão para sempre as testemunhas oculares dos dias iguais que se seguirão, um domingo único e solitário, sei-o de antemão, tu e os teus olhos atestarão que as mil ruas de Lisboa que percorrerei serão uma única ruína, os teus olhos ausentes confirmarão que passarei os meus dias lendo páginas rançosas de livros por escrever, rumo a um final previsível que não será feliz, em tudo o que importa tento não pensar por entre a vertigem do galope deste fiel cavalo de metais, borrachas e gasolinas, é inútil, tenho de parar. A fera de ferro calou-se. E agora? O eco deste silêncio pesado rebatido pelos muros e ruínas de Lisboa rompe-me os tímpanos. A minha vida esvai-se, como o óleo que pinga do escape. E agora? Devia ter-to dito.
Read more...7 de Fevereiro de 2009
Retalho
Foto saqueada daqui
Voltou a esticar a mão para o peito do corpo deitado a seu lado, e não sentiu nada. Reflexamente, o seu próprio coração pareceu deixar de bater.
Henrique estava inconsciente, pensou. Voltou a chamar por ele, num sussurro, as suas cordas vocais engasgadas pelo horror. Forçou-as até à dor e saiu-lhe (quase audível) o nome do lavrador.
Não lhe respondeu. Permanecia inconsciente. Permanecia ferido. “O que é que eu faço, o que é que eu faço, meu Deus?”, perguntou-se.
Gritou, tão alto quanto pôde, por socorro. Esperou uns momentos e voltou a gritar. Apenas as gotas de água afagando a cama de folhas mortas lhe respondiam.
Conseguiu num esforço desmesurado pôr-se de pé, contrariando ardores afiados que lhe prendiam as articulações e agulhas pontiagudas que lhe inflamavam o cérebro. A tontura quase a levou de novo ao solo.
Endireitou-se e olhou em frente para o tronco claro dos grandes choupos, únicas testemunhas vivas do seu pânico. É claro que não se atrevia a olhar de novo para o corpo do amante. Queria conservá-lo naquele estado de inconsciência: temia que mais um olhar, ainda que de relance, confirmasse o pior. Ou levasse ao pior.
De pescoço inclinado para as copas altas dos choupos, tacteou procurando, sem olhar, os fósforos com que Henrique acendia os seus cigarros e que sabia que trazia sempre no bolso das calças.
“É tudo medonho quando se olha no escuro”, pensou. “Quando puder ver direito, verei os seus olhos abertos – nada se passou, tudo está bem.” Mas, no fundo, temia abrir os olhos.
Um tímido raio de luz enganou a escuridão quando Máxima riscou os fósforos, protegidos da chuva pela flanela grossa dos bolsos de Henrique.
A luz envolveu o espectro inteiro no curto momento em que o processo químico da queima atingiu o seu expoente. Aí os choupos confirmaram, com o sangue-frio feito de seiva, que, de Henrique, restava apenas um resto de corpo. Máxima, com o sangue-quente feito de ilusão apaixonada, abrigou-se de novo no breu que se seguiu ao apagar do pau de fósforo. Máxima entrincheirou-se na escuridão, sentindo-se protegida pelo velo, dela hesitava em sair.
“Não, não é possível”. Decerto não teria visto bem àquela luz tímida. Henrique estaria apenas desmaiado.
Mas se continuasse assim, morreria mesmo, esvaindo-se lentamente em sangue como o suíno na matança.
Uma voz interior, a mesma que contra a sua vontade havia antes balbuciado o nome de baptismo do amante, dizia-lhe, no entanto: “Por favor, aceita, aconteceu uma desgraça. Os desígnios de Deus são insondáveis, seja feita a Sua vontade.”
“Cala-te!”, gritou Máxima, e desta vez de viva voz.
“O que fazer”, disse baixinho de si para si. “O que fazer? Não é verdade, não pode ser verdade, tenho de buscar socorro antes que seja tarde demais”, sussurrava, sentindo calafrios.
“Se ao menos aparecesse alguém. Se ao menos algum pastor viesse atrasado da recolha”. Mas Máxima pensou que um pastor não lhe serviria, mesmo que viesse, o que Henrique precisava era de um médico. Tinha de ir em busca de um, precisava desesperadamente de encontrar nestas paragens uma casa com um telefone que lhe trouxesse um médico, e a estas horas, e imediatamente.
Mas e o que fazer, deixar Henrique ali sozinho, inconsciente, à beira da morte? E se o homem acorda apenas para se aperceber que vai morrer sozinho? Melhor será fazer-lhe companhia, tranquilizá-lo, chamar por ele, despertá-lo?
Momentos intermináveis passaram, Máxima aninhava-se, como uma criança, num limbo de indecisão. Até que, num assomo de consciência adulta, Máxima percebeu que tinha de ser ela a pôr mãos à obra. Agora que Henrique jazia ao seu lado, não restava ninguém que pudesse decidir por ela.
Decidiu-se, pois, beijou a testa – singularmente gelada - do amante e trepou o monte até à estrada. Não foi difícil dar com o caminho, bastou-lhe seguir as pegadas de metal e borracha dos destroços. Dirigiu-se para norte, dando costas à Estrela, em sentido contrário ao rastro de entranhas metálicas que o Mercedes tinha antes cuspido. Não se lembrava de ter visto sequer um abrigo de pastor, quanto mais uma casa com cabeça, tronco e membros e a porcaria de um telefone que lhe permitisse chamar uma ambulância.
Mas Máxima era impelida pelo desespero, caminhando em duelo quixotesco contra todas as probabilidades. Naquelas circunstâncias, não havia outra alternativa suportável: Máxima não esperava menos do que um milagre.
E lá ia ela a passo ligeiro, tanto quanto a teimosia forçava as pernas entorpecidas.
Tentando fazer ouvidos moucos às vozes que a perseguiam.
Tapou os ouvidos com força, a tal ponto que sentiu os lóbulos a arder. Debalde, porque era da sua mente que aqueles sons medonhos lhe chegavam, não das copas escuras dos castanheiros que agora lhe ensombravam a caminhada: era o seu cérebro traiçoeiro que produzia os gemidos de Henrique chamando por si. Teria ele acordado e ela o largado abandonado nas silvas, o sangue diluindo-se na morrinha?
Fazia por não os ouvir, do mesmo modo que o pastor faz ouvidos moucos ao grunhir medonho da ovelha predilecta que foi abatida para a ceia de Natal. Era preciso não dar ouvidos ao desespero de Henrique deixado para trás, de outro modo não haveria para este remédio. Ainda assim, cedia o passo quando o cérebro lhe pintava uma imagem mais nítida de Henrique despertando e sofrendo eremita.
Quando se apercebeu das suas hesitações, acelerou o passo, lutando contra a sua imaginação. Era urgente ter uma fé absolutamente cega.
Estugou o passo, mas, mal tinha silenciado, à força de uma teimosia de paquiderme, os bramidos informes do amante moribundo, desenhou-se no seu pensamento uma imagem, nítida, precisa, acutilante, imóvel.
A memória tinha, vencendo facilmente a sua vontade, revelado, com precisão de bisturi, uma fotografia, iluminada à luz do fósforo que há momentos tinha aceso, dos lábios de Henrique: gretados, secos, pálidos, pardacentos.
Incolores.
Nesse preciso momento, discerniu pela primeira vez com uma clarividência de assombro: é assim, a morte.
Sentiu-se só, Máxima, enquanto percorria mais uma centena de metros da Estrada municipal sem avistar nem uma choupana. Sentia-se só, Máxima, enquanto a sua mente imaginava a respiração moribunda do Henrique deixado para trás, querendo, à beira do juízo final, sussurrar-lhe, por fim, palavras de ternura e de arrependimento.
Forçou-se a recordar a voz ríspida e cortante do seu amante, já tão vaga na reminiscência, apesar do pouco tempo que passara desde o último momento em que a ouvira. Forçou-se a ouvi-la, a voz seca do seu amante. “Enquanto a ouvir”, pensou Máxima, “não estou sozinha, enquanto em mim o ouvir. Há um fogo que a sua voz ateia, e essa luz está aqui, comigo, enquanto caminho”. Essa luz trazia-lhe vida, estava grata a Deus pela vida calorosa que essa luz lhe trazia. Havia mais vida nesta luz do que em toda a sua existência.
Seguia o seu passo, mais uma centena de metros, sem avistar vivalma, mas sonâmbula, perseguindo o improvável em que voltava a ter fé. A luz abstracta que levava consigo protegia-a contra a figura concreta que tinha deixado para trás: um corpo inerte, com todos os sinais de um cadáver.
A violência da palavra “cadáver” que Máxima sentiu a pairar por sobre si como uma bigorna moral prestes a esmagá-la fê-la voltar a si. “Cadáver”.
De repente, numa espiral de vertigens, mais do que sozinha, sentiu-se fora de si mesma. Sentiu que se observava, crescia grotescamente para dimensões transcendentes, expandindo-se até que flutuava muito acima do seu corpo e da matéria que a rodeava. Viu-se deambulando, sem rumo, em busca de coisa nenhuma. Nada poderia evitar o que acontecera. A voz não vinha de Henrique, vinha de dentro do seu pensamento, não havia candeia que lhe alumiasse o caminho, apenas trevas cercando-a.
Isto não vai dar a lado algum. E se encontrar alguém, o que já de si não é provável, o que lhe digo? Que tive um acidente com um sujeito às oito da noite numa estrada perdida da Beira e que o tipo está moribundo (ou estará antes que lá cheguem)? Perguntar-me-ão quem sou e o que faço. E outras perguntas mais, que antes que acabem já o Henrique terá ido desta para melhor.
E que devo responder? Não lhes direi nada, não tenho nada que responder.
Ouviu vozes à distância. Quase gritou pelo socorro por que tanto ansiara. Calou-se no último instante.
2 de Fevereiro de 2009
Retalho
Abandono o pátio a uma hora insolitamente matutina, o selim da bicicleta cintila de geada. Fecho bem o capuz com o cachecol, exalo fumo, esfrego mãos e, ala, pedalo pelo asfalto prateado de orvalho. Rola e rola a roda, a corrente ruge de ferrugem fazendo-me companhia pelas ruas ocas. A Cerca Moura perdeu o ponto de fuga, este Tejo abraçou-a numa nuvem grossa e cinzenta, um hipopótamo de vapor chegando-se a ela como se lhe portasse um recado de Poseidon. Nela mergulho e, como São Vicente e os seus corvos, também eu desapareço. Desço às cegas a colina, os trilhos do 28 servindo-me de cão-guia. Muito para recordar, muito cedo para sentir. Lisboa, assim vestida em brumas, é furtiva como uma amante. O ar está gelado e com os olhos em lágrimas de vento busco algum indício. Para lá do velo, vislumbro um varandim, a que se segue outro, aqui uma portada se abre, uma janela aguarda que lhe subam o pano, para que a peça deste dia de Janeiro se encene. A vitrina de um café ao pé da Sé mostra a primeira fornada, mas não só. Nela se encosta o meu reflexo: conturbado, revolto, sombrio. Eis os despojos da noite sem nome, aquela que agora começo a recordar com o fôlego suspenso, um novelo de arame na garganta, a face rubra de vergonha. E enquanto o nevoeiro levanta desnudando a cidade dos seus pudores – vergonha! –, outro vulto se fixa na vitrine: comeria com os olhos o produto fumegante da pastelaria ou sondaria no meu olhar a marca do delito?
29 de Janeiro de 2009
26 de Janeiro de 2009
Retalho
Recolhe as moedas todas espalhadas pelo passeio e pára de desafiar os transeuntes com aquele olhar de incriminação, a rapariga dos sapatos descascados e das roupas dois números acima da sua actual medida. De súbito, rompe num pranto e pede-me cigarros (em vez das moedas que me enchem o bolso pequenos dos jeans importunando o osso cujo nome desconheço, aquele que fica na esquina da anca). A mudança de alvo terá sido provocada por uns sujeitos que se aproximam, apercebo-me quando a rapariga se enrosca nos seus trapos e, com um arrepio, lança o canto do olho para os dois impecáveis polícias que cirandam ali pela esquina com os seus asseados uniformes azuis: pensará a rapariga estarem fazendo ronda aos seus metaizinhos preciosos e em serviço a bófia pelo menos ainda não fuma, tal mancharia a limpeza da corporação, o que não quer dizer que não roube, e a rapariga essas coisas lá terá aprendido nas aulas que a rua lhe deu, treinando-a para desmascarar o perigo, use ele o disfarce que lhe aprouver, que mil formas toma o Diabo. O vagabundo que lhe faz as vezes de um parceiro insiste em soltar-lhe imprecações ininteligíveis (que a rapariga visivelmente compreende) não satisfeito por lhe ter aplicado um violento pontapé no caixote de cartão castanho onde antes jaziam as economias (comuns?) recolhidas ao longo do dia. Finalmente vai-se, numa ira tamanha, sei lá eu porquê (sabê-lo-á a rapariga dos olhos de gato, mas entre marido e mulher, já dizia o outro).
Aproximo-me dela e faço como se me fosse sentar.
"Posso?" – indago com deferência, a modos de quem pede para entrar no hall da casa.
22 de Janeiro de 2009
Retalho
Assim, Carlos, por uns tempos, trabalhou, comeu e dormiu por entre as cinzas da Grande Fábrica Panificadora na Grande Cidade. Pegava no serviço às oito da noite e não o largava antes de o sol retomar a sua descida. O seu trabalho consistia em alimentar a enorme fornalha e limpar a escória sobejante, alimentar a enorme fornalha, limpar a escória sobejante, alimentar a enorme fornalha e limpar a escória sobejante. Enquanto se ocupava destas tarefas, outros homens encostavam-se às mesas de pedra e amassavam farinha, amassavam farinha, davam-lhe forma, davam-lhe forma, amassavam farinha, amassavam farinha, davam-lhe forma, davam-lhe forma. Os braços dos trabalhadores e o calor da fornalha produziam os únicos sons: ninguém dizia palavra, o que seria, aliás, inútil, se ninguém falava a mesma língua.
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