1 de maio de 2009

Máxima

(Cont.)

Máxima não quer pensar e por isso mesmo foca a atenção nos detalhes: faz uma pausa para recuperar o fôlego que é preciso para se chegar de mansinho à realidade, não o quer fazer de rompante, não quer simplesmente abrir os olhos: ganha tempo com os outros sentidos: sente as suas costas amainadas por uma inusitada camisa de noite, feita de sedas que a sua bolsa jamais alcançaria; um tecido feito de pudor, leve, diáfano, de um cobre quase celeste, que não vê ainda, e ainda não quer ver, mas imagina, um vestido de uma sedução paradoxalmente angelical, que não combina com ela; sente-se nele como um peixe fora de água; e depois o olfacto: há uma pureza de água de nascente que lhe conspurca as narinas, como se as mil lavagens dos esticados lençóis de linho conspirassem contra a sua modéstia original, desnudando-a, em vez de a camuflar, na sua simplicidade amorfa; chilreiam os pássaros, lá fora, numa cadência rítmica de que jamais se havia apercebido; e tudo isto é insultuoso, tudo isto a induz à deriva, tudo neste hotel de província, para ela de um luxo que os olhos de um cidadão urbano desdenhariam, põe Máxima no seu lugar; sente um peso que a esmaga, e ainda não teve o arrojo de abrir os olhos. O Diabo te carregue, Máxima, está-se nas tintas, e decide-se. Abre-os. E vê dois pontos pequenos, escuros como a noite, que se alargam à medida que a sua íris tenta focar, debalde, não há nada que foque a esta curta distância, dois pontos negros desrespeitam os limites toleráveis da intimidade, dois olhos vítreos tomam-na de assalto, e ela recua e cerra-os de novo, e umas mãos poderosas arranham-lhe o dorso por sobre a seda, e ela sente-se comprimida em toda esta pressão, a cada instante mais pequena, a cada instante mais desprovida de sentido. Meu amor, o que se passou, sussuram-lhe com hálito cálido ao ouvido, são estas palavras, ainda antes das imagens, com que Máxima cai em si. Caindo em si, Máxima quer sair dali para fora. As unhas de uma força e decisão grotescas dilaceram-na em excitação e ela numa luta vã, numa luta brava. Meu amor, o que se passou, mas meu amor, fica lá quieta, está bem? E Máxima quer ficar quieta, porque Máxima não quer abrir os olhos, porque Máxima quer ser desafectada, descomplicada, não quer despertar, porque Máxima não quer sonhar, não há direito: a sonhar. Mas é nessa recusa, é nesse cosmos pardo feito de olhos cerrados, feito de denegação, que a imagem da Velha lhe aparece.

(cont.)

3 comments:

once 4 de maio de 2009 às 11:01  

Bom. Muito Bom.

e mais não sei que te diga. escreves por imagens tu. além de ler consigo perfeitamente .. ver, cheirar.




:)) boa semana *

SC 7 de maio de 2009 às 14:39  

Mais, mais! (vá, eu controlo a minha avidez.)

Artequianos 7 de maio de 2009 às 15:00  

Sim, é verdade, estou aqui a publicitar a nossa peça intitulada: NU.

6as e sábados às 22h no Bar Novo da Faculdade de Letras. Reservas: 221 799 0530.

Porque gostamos de letras e de nos descobrirmos!

Saudações Teatrais! =D

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