7 de maio de 2009

A Velha

Amansada pelo caldo verde que a Velha, como todas noites, servira como ceia, chegava a hora mágica em que fazia as pazes com o dia.

A Velha sentava-se no cadeirão de palha e pregava à lareira, beijando de quando em vez o crucifixo, que segurava com força entre as mãos rugosas, pintalgadas de manchas castanhas que a Pequena percorria como se fossem misteriosos continentes desenhados num mapa de outro mundo.

Orar terços, rezar novenas, rogar aos santos que a acudissem, parecia ser mister único da Velha. Fazia-o ora com aparente indiferença, ora num fervor de contorcionista, que fazia bailar o longo xaile negro que sempre trazia vestido e que parecia conduzi-la ao centro do universo. A Pequena habituara-se de tal modo àquela ladainha, que, se deixava de a ouvir, receava que a Velha se desfizesse em pedaços, temendo que a lengalenga fosse a argamassa que juntava as peças frágeis daquele corpo mirrado.

A oração era a companhia da Velha e a Pequena abrigava-se no casulo protector da litania.

Tirando as orações, pouco mais a Velha dizia. Mas, terminada a ceia e despachadas as últimas novenas, a Pequena pousva a nuca no colo da Velha e os rostos de ambas brilhavam com os seus relatos. Era a essa hora que a Velha escutava atentamente o que a Pequena lhe tinha para contar. Invariavelmente, eram sonhos, pois que a Pequena, mesmo se desperta, vivia sempre noutros mundos. A Velha nunca a contrariava, por mais estapafúrdios que os relatos fossem, ouvia-a num silêncio a meio caminho entre a atenção e a condescendência, como se imitasse o Padre Vasco que tantas vezes a ouvia em confissão.

Certa noite, com a inocência que ainda não perdera pelos meandros da vida, a Pequena perguntou-lhe:

“Avó, os sonhos tornam-se realidade?”

A Velha pensou por longos momentos. O silêncio sufocou a Pequena como um manto grosso e, à medida que aquele tempo despido de sentido se arrastava sem que a Velha dissesse ai nem ui, a Pequena, de simplesmente curiosa, ficou receosa, com uma expectativa sobre o que aí viria que lhe dava um nó na garganta. Seria aquela uma pergunta proibida? Virou lentamente o pescoço e observou a Velha, à cata de uma pista que decifrasse o mistério. Os sulcos que percorriam aquele rosto retalhado em rugas mostravam ponderação, em vez de indecisão ou arrelia. A pequena acalmou e acabou por sossegar de vez com o sorriso que a Velha lhe dirigiu, como se finalmente se tivesse decidido. Com vagar, retorquiu-lhe as palavras que agora, naquele frio quarto de estalagem, lhe voltavam à memória, como um aviso:

“Queres saber se os teus sonhos se tornam realidade, Máxima? Sim, se não os partires.”

“E como os posso partir?”

“Se te agarrares a eles com muita força.”

6 comments:

mulheresforadehoras 7 de maio de 2009 às 21:27  

Olha cá para nós chorei ao ler o teu conto, e não sou de lagrima fácil. Trouxe recordações "raios te partam ou se faça luz". Sim os sonhos se partem se os agarrar-mos com muita força, mas o medo...bem é deixa-los fluir...fantastico, fantastico mesmo!
maria joão encantada

once 8 de maio de 2009 às 09:59  

trata-os, cuida-os, como se de porcelana fossem.
Limpa-os, lima-os, por vezes vais ter de os acomodar num algodão fofo adiando-os .. mas nunca, por nunca te esqueças deles, Máxima. Morrerão se o fizeres.

__

Esgotam-se-me os adjectivos Tiago.
Está brilhante. E comovente.
Obrigada por isso.

Bom fim-de-semana *

Garf 10 de maio de 2009 às 22:51  

"... ou se desistires deles, Máxima, por pura e simplesmente achares que não passam de sonhos.", acrescento eu, humildemente.
Uma vez mais em grande estilo, Ogait.

Morrer em Magenta 13 de maio de 2009 às 22:21  

Este post não tinha sido já publicado? Acho que foi o primeiro teu que li, que me fez voltar sempre.

Tiago 14 de maio de 2009 às 11:08  

Que exagero, fazem-me corar Maria João, SC, Once, Garf. Leitora atenta, Morrer em Magenta. Sim, já tinha sido publicado, agora foi repescado e retocado porque vivia solitário e agora entrou numa história maior. A Velha assim ganha vida. Acho eu.

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