2 de março de 2009

Retalho

Quarenta anos tinham passado desde que ali arribara e Joaquim teimava em não morrer de amores por Lisboa. Isto é lá lugar para namoros, era a resposta que Amália aturava do estafermo do marido sempre que lhe pedia para a levar a arejar. É que da cidade Joaquim pouco mais conhecia do que os nomes das ruas que a furgonete atravessava pachorrenta nas madrugadas sonâmbulas, da casa nos arrabaldes até ao mercado, junto ao Tejo. Mas ali sim, sentia-se em casa, como que num romaria virtual às suas origens. Se algum amigo lho perguntasse, não saberia nunca explicá-lo, que era homem de escasso vocabulário e pouco dado às subtilezas da metafísica (e, de qualquer modo, era sujeito de poucos amigos e nenhum deles sequer particularmente curioso, quanto mais dado às mariquices da especulação filosófica), mas sentia-o, isso sem dúvida, pois que, longe de ser sentimental, não deixava de ter vindo ao mundo provido da sensibilidade própria de quem nasce orgulhosamente campónio: para ele, nada como os víveres preparados pelas mãos instruídas de mulheres fortes, carrinhos de mão onde um mundo inteiro cabia, oleados deixando entrever um repolho aqui, um molho de cebolas ali, um cesto de pão fumegante abrindo apetites, o odor azedo de queijos cortados à navalha por dedos sujos de trabalho, chegava mesmo a comover-se com o vôo dos sacos de plástico flutuando a meia altura no mercado, pareciam-lhe, perdoe-se-lhe a rudeza da imagem, aves de rapina sustentadas no ar quente, aquecido a fritos, cozeduras e sudações laborais. Gostava do perfume do pé-de-salsa, do ruído dos jornais da véspera embrulhando os jaquinzinhos, sorria dos resmungos do louco residente, compartilhava as gargalhadas do talhante, compadecia-se, com sobranceria máscula, das inocentes zaragatas das comadres peixeiras, invejava a destre cantilena fadista dos ciganos que protestavam contra a infame prepotência do fiscal que lhes passava mais uma multa pela ausência de licença, encantava-se com os desenhos das escamas do peixe debulhado decorando de neve salgada o pavimento do recinto, enternecia-se com o amuo das crianças arrastadas pelas mães-freguesas, participava na tagarelice das velhotas da hortaliça, pilhava com parcimónia os escaparates das azeitonas gordas, galhofava dos pimentos convidando ao deboche, dialogava com os olhos redondos do besugo perguntando ao que tinha vindo, identificava-se com o coração mole da couve-flor, rebatia argumentos com peritos de trazer por casa sobre os mistérios da maturidade do melão, excitava-se, enfim, com o alvoroço permanente daquela bolsa de valores à escala humana. Até que uns anjos vestidos de bata e munidos de amoníaco esterilizavam a grande loja e tudo permanecia na obscuridade até à próxima alvorada. Mas até à hora da limpeza geral, ainda que o chão estivesse sujo e fedorento, o ar perfumava-se com o incenso dos sumarentos limões, da dourada canela, dos rijos camarões, dos fumegantes papos-secos, dos frescos coentros, do robusto queijo da serra. Aquilo, para Joaquim, era um concentrado de vida.

4 comments:

once 3 de março de 2009 às 10:39  

e a tua forma de escrever colocou-me, direitinha, lá no meio ..

Incrivel.

Zé Nuno 3 de março de 2009 às 10:55  

Ver beleza num saco de plástico a voar, de facto, não é para todos! Lembra-me uma cena parecida do grande filme American Beauty... :) Ah e esses gajos das batas brancas são uns desmancha-prazeres!!!

Rui 3 de março de 2009 às 12:35  

Sabe bem o que sente, o Joaquim, que lá há isso tudo e mais: coisas novas para descobrir, que os dias nunca são iguais - e as noites são ainda mais diferentes, numa correria a tentar ganhar ao sol.
Conheço um sítio assim, ao pé do rio, também. Mas de tanto o ter olhado, o ter percorrido, só consegui querer ficar a saber mais.
Quase arriscava dizer que conheço o Joaquim.

Garf 4 de março de 2009 às 11:38  

Foste ao mercado. Mas já nem esse é como foi. Os gajos das batas brancas, como diz o zé...

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