12 de março de 2009

Máxima

Foto saqueada, uma vez mais, daqui. Este retalho é continuação deste retalho.





À luz baça da alvorada que se anunciava (como era possível ter passado tanto tempo) não tinha pistas para discernir onde se encontrava. A paisagem não lhe era familiar, ela que tantas vezes tinha percorrido aquela estrada, a mesma que tinha traçado, em marcha inversa, com o seu amante, antes do momento fatídico que alterararia a sua vida para sempre. Os castanheiros e rochedos graníticos tinham desaparecido por artes mágicas e Máxima, à sua volta e no nevoeiro que repentinamente tinha caído, mal conseguia enxergar um palmo à frente do nariz. As vozes, cavas e indistintas como o rosnar de um mastim, aproximavam-se, sem que Máxima se apercebesse do que diziam. Instintivamente, escondeu-se por detrás de uns pinheiros. Encolheu-se o mais que pôde, aterrorizada, ela que (apercebia-se agora) durante tanto tempo deambulara sem rumo certo, perdendo-se no desespero. As vozes estavam cada vez mais perto. Tremeu da cabeça aos pés: alguma coisa lhe dizia que não devia revelar-se aos sujeitos que se aproximavam, que a única coisa que importava era que eles não soubessem de que ela ali estava e o que lhe tinha acontecido. Nem que a apatia representasse a morte certa de Henrique. Rezou, Máxima, sem abrir os lábios, rogou a Deus que os caminhantes passassem do outro lado da estrada e não a notassem. De novo se sentiu a criança que fora, fazendo tudo para se fundir com o pinheiro. As vozes chegavam quase à sua beira, nem assim Máxima entendia o que diziam. Um suor frio percorreu-lhe todo o comprimento da coluna. Cada vez mais perto, Máxima rezando Avé-Marias. O nevoeiro fechava-se em si mesmo, enrolava-se num novelo de algodão espesso, tosco, agreste, que a sufocava. As vozes mais intensas.

As vozes? A voz. Aqueles eram sons de uma só alma. Um monólogo. Um chamamento. A princípio, não quis acreditar. Mas a voz rouca estava já demasiado próxima para que Máxima pudesse recusar ouvir o que dizia.

“Máxima!”. “Máxima!”.




to be continued.

8 comments:

once 13 de março de 2009 às 10:38  

"to be continued"

Hope so!

Zé Nuno 16 de março de 2009 às 15:06  

"castanheiros e rochedos graníticos"... Apesar de intemporal isto faz-me lembrar Trás-os-Montes... Ai que saudades! :-)

Tiago 16 de março de 2009 às 15:13  

A seu tempo, Once, mas fica prometido. Trás-os-Montes e a Beira, seu traidor...

SC 19 de março de 2009 às 13:21  

Também aguardo a continuação! :)

Tiago 19 de março de 2009 às 14:20  

A seu tempo, SC, isto não está fácil.

once 24 de março de 2009 às 10:19  

knoc .. knoc .. :) "to be continued" diz ali ..!

:)

Tiago 24 de março de 2009 às 11:57  

Faça favor de entrar, Once. A Máxima anda por aí a passear e ainda não me disse o que fazer do seu destino. Mas um dia destes aparece.

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