19 de fevereiro de 2009

Retalho

Uma nuvem manhosa surpreendeu-os no caminho, deixando que o sol os vigiasse por detrás da espessura, a espaços. O cavalo de ferro relinchava, as rodas queixavam-se dando golpes como coices, como se de súbito os seus mecanismos tivessem produzido um artificial instinto de sobrevivência e se quisesse libertar das rédeas do motard inconsciente que o lançava a toda a brida, disparada como um projéctil furioso pelas estradas de Monsanto. Quente, imóvel, sonolento no bafo, o bosque, revelado às claras, apavorava-a, como se a luz do dia concretizasse os pinheiros, eucaliptos, amendoeiras e demais obstáculos verticais que, na obscuridade, ela evitava com imprudência ágil, obedecendo ao pulso firme do dono. O motard conduzia-o por uma curva longa, o dorso quase raspando o asfalto, e enfiava-a agora pela descida até ao grande viaduto. Não oiço nada, pensava, só o cantar agudo dos pneus, não sinto nada, só a vibração dos metais, em ziguezague serpenteio entre veículos, carro após carro após carro, o vento esbofeteia-me a cara, o peito comprimido contra o ar feito uma muralha, o rosto é plasticina contorcida, vejo o meu caminho, encolho os traços que pintam as bermas da estrada e transformo-os numa linha só, carros e camiões, navego-os como uma bala, pneus, ligas leves, os espelhos revelam sombras de rostos assustados deixados para trás, desvio-me desses elefantes com rodados longos no lugar de patas que me passam ao lado, galgo esta curva e vou galgar a próxima, cada vez mais depressa, o motor quente quer voar, o meu cavalo de ferro, borracha e combustível dá um salto levantando a dianteira, o guincho, a borracha queimada entra-me nas narinas, é uma droga, é uma doga que acelera pulsações, o coração bombeia fluidos, sangue e seiva e adrenalina, ritmo sincopado com pistões e válvulas, um coração nervoso que bombeia e bombeia e bombeia, e passo este gajo e agora o próximo, e passo o vento e passo os pássaros e tubarões prateados e cães atravessados no caminho, e as figuras e os rostos e os corpos, e assim não sinto mais nada, e nesta vertigem não penso em mais nada, e nesta vertigem não penso no que ficou por te dizer, que devia tê-lo dito mas estava bêbado da tua beleza, que a minha pele tem memória das tuas mãos que nunca me tocaram, está impregnada do perfume que só ao de leve senti, que o meu tacto sente as tuas vibrações, que as tuas conquistas são as minhas derrotas, cada encontro com a Lisboa em penumbra está marcada pelos teus restos e rastos, por tua causa amo agora Lisboa como quem ama uma mulher de rosto desfigurado, tudo em mim é compostura, compostura, compostura e medo, devia ter-to dito, é um crime não to ter dito, é um crime não te ter falado dos diamantes que nadam nos teus olhos, esses olhos pardos que em plena ausência me atormentarão todos os meus dias, devia ter-te dito que, longe de ti, tu e os teus olhos cinzentos serão para sempre as testemunhas oculares dos dias iguais que se seguirão, um domingo único e solitário, sei-o de antemão, tu e os teus olhos atestarão que as mil ruas de Lisboa que percorrerei serão uma única ruína, os teus olhos ausentes confirmarão que passarei os meus dias lendo páginas rançosas de livros por escrever, rumo a um final previsível que não será feliz, em tudo o que importa tento não pensar por entre a vertigem do galope deste fiel cavalo de metais, borrachas e gasolinas, é inútil, tenho de parar. A fera de ferro calou-se. E agora? O eco deste silêncio pesado rebatido pelos muros e ruínas de Lisboa rompe-me os tímpanos. A minha vida esvai-se, como o óleo que pinga do escape. E agora? Devia ter-to dito.

3 comments:

once 20 de fevereiro de 2009 às 11:24  

para a sócia nº qualquercoisa do Moto Clube de Lisboa, este texto é um soco no estomâgo Tiago ..
Mas, absolutamente fiel.

Li de um fôlego.

Tiago 20 de fevereiro de 2009 às 11:35  

E olha que eu tenho um medo delas que me pelo...

Zé Nuno 2 de março de 2009 às 19:22  

És um verdadeiro motard em potência :)

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