2 de julho de 2009

Retalho


Uma lama de calor tombava sobre o bairro de Alfama, amolecendo as casas descascadas e as indignações dos marchantes que se recolhiam para dentro delas curando ressacas e guardando para mais tarde intermináveis discussões de protesto sobre mais uma vitória, é claro que comprada, da marcha de Xabregas, estavam todos feitos, os júris e aqueles orientais, era assim que chamavam a todo o munícipe que vivesse para lá de Santa Apolónia, sem distinção, mas sobre estas singularidades bairristas falaremos depois, fica mais para a tardinha, quando a canícula se for e se puder bebericar lentamente as cervejas mornas que ficaram por aviar de véspera na noite de Santo António. (Mas lá que foi um roubo de igreja, lá isso foi.) Por ora, falemos de Romeu Fulano, assim conhecido pela vizinhança por não se lhe conhecer apelido e por nunca jamais vizinho algum se ter atrevido a dá-lo por tu pelo nome de batismo (embora para os mais íntimos o Ruço), e situemo-lo, como mandam as regras, no espaço e no tempo: Romeu Fulano, mais ou menos setenta anos feitos em Abril, que ninguém diria, usando o fato completo de linho que os galhofeiros juravam que nos meses de estio nem no leito retirava, mesmo quando a mulher era viva, faz hoje quinze dias e que Deus a guarde e a compense das passas do Algarve por que ela passou, Romeu Fulano, dizíamos, abriu com vagar a porta do seu prédio, sito às Escolas Gerais, reconhecendo não sem indiferença o ranger que a maçaneta de madeira provocava em conjugação com as ferragens ferrugentas que provocavam a abertura contrariada do trinco, ganhou balanço com um suspiro e um afago no seu bigode ralo, à soleira da porta, e enfim começou a penosa subida em direção ao mosteiro de São Vicente, tomou esse caminho sem razão alguma, só porque sim, aliás como soava fazer todos os dias, saiu pois de casa indiferente à impropriedade daquela hora em que Alfama se transformava em pueblo branco andaluz gozando clementes sestas. Dessa vez, porém, a soberba da sua rotina indiferente aos elementos parecia estar a sair-lhe cara, pois que, à medida que acompanhava em sentido ascendente os trilhos do elétrico vinte e oito, gotículas de suor crescentemente abundantes sulcavam as suas costas, manchando o casaco de linho, inofensivos estiletes pareciam querer furar-lhe o crânio, provocando-lhe insólitas tonturas de calor nunca antes sentidas no percurso rotineiro que cada dia decidia bater, depois de um balanço à soleira da porta traduzido por um suspiro e um alisar do seu bigode ralo. Pelo que, e em consequência, fez uma pausa inusitada à porta de alumínio da padaria, evidentemente encerrada, para retomar o fôlego. Fechou os olhos, Romeu Fulano, o Ruço, e deu-se conta da sinfonia tonitroante de um zumbido pesado feito de grossos moscardos e de anómalas cigarras que invadiam impunemente a urbe, muito para além dos limites que a Criação havia delineado. Teve ainda forças para tomar nota do aroma vaporoso a detritos líquidos das sardinhas assadas de véspera e cujos restos ressequiam solidificados por sobre passeios e asfaltos. Deu mais suspiro e mais um coçar do bigode, tomando balanço, e, reabrindo os olhos, preparava-se para retomar o rumo; eis senão quando, do bolso interior do seu impecável casaco de linho, um inesperado toque metálico o avisava: seria suposto, pois, pegar no telemóvel que o seu único sobrinho, Rogério, quarenta anos feitos que aparentavam muitos mais, lhe havia oferecido pelo último Natal. Pegou então relutantemente no aparelho e, com surpreendente eficácia ou desenrascanço, abriu a caixa de mensagens. Nove algarismos que não constavam da sua lista de contatos lhe comunicavam:

“Ruço, faleceu ontem Rita, vítima doença prolongada. Achei justo saberes. Enterro amanhã. Sentidos pêsames. Raimundo.”


A mulher com quem havia passado uma vida, passara-se há quinze dias e Romeu Fulano saía com o casaco de linho e o bigode ralo em direção ao Mosteiro de São Vicente, porque sim, todo o santo dia, indiferente aos elementos ou circunstâncias. A namorada de quem nada sabia há uma vida, passara-se há um dia, e o Ruço não mais retomava o passo.
Olhava para o céu cristalino, fazia ponto de mira e encarava, com irreverente persistência, dir-se-ia olhos nos olhos, o sol, como se este lhe devesse uma explicação. Até que os seus próprios olhos secavam e se transformavam em crateras de poeira e, quase cego, nada via para além de uma indistinta mancha verde de estupor. Mentalmente repassava o filme da mensagem que o Raimundo lhe enviara, tentando assimilá-la. Tornou-se rígido, um corpo só. Ainda não tinha incorporado, e traduziu, com todas as letras:
Rita, morreste-me.
E liquefez-se e estendeu-se ao comprido e jazeu entre os carris do tão típico elétrico vinte e oito.
E é sobre o que se seguiu, e sobre o que antecedeu, e sobre bairrismos e outras coisas que um dia destes, quando nos aprouver, falaremos, assim que a canícula passar e se possa bebericar lentamente cervejas mornas que ficaram por aviar de véspera em noites de Santo António.

2 comments:

once 2 de julho de 2009 às 11:49  

vou querer ouvir. Mesmo.

Garf 2 de julho de 2009 às 18:59  

Enquanto espero pelo prometido, vou eu hoje bebericar umas cervejas na colina em frente e, depois, mais não sei o quê não sei onde. A ver vamos...

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