9 de abril de 2008

Retalhos da vida de um consultor

(Louvado seja o leitor que aguente um post deste tamanho. Já cá não escrevinhava vai para mais de um mês, agora é dose.)

Enquanto percorro a passo de caracol o viaduto Duarte Pacheco, ligo a TSF e oiço, com a atenção que a personagem merece, a última invenção do Luís Filipe Menezes para animar as hostes dos seus correligionários, parece que o homem vai conquistar o poder fazendo do PPD um partido à imagem do Alberto João. Depois escuto, com a atenção que a personagem merece, um não-sei-quantos-qualquer-coisa do partido do governo afirmar que o Luís Filipe Menezes, “esse paladino da liberdade da imprensa”, teve o descaramento de estar presente no congresso do PSD-Madeira, logo agora que os laranjas autonómicos decidiram fechar a porta de tão disputado e emocionante evento aos jornalistas. Sobre os elogios do cara-de-sapo ao ex-Bocassa da Madeira, este tal não-sei-quantos-qualquer-coisa comenta que o PS não comenta declarações de órgãos institucionais no âmbito de funções institucionais.

Desligo, pois, o rádio e observo os colegas de fila. Passo por uma secretária de direcção que penteia as sobrancelhas ao retrovisor, retoque que denuncia, penso eu com os meus botões para me entreter, a secreta esperança de que os olhinhos que ela faz ao chefe sejam finalmente notados e enfim lhe faça o convite para um fim de semana naquela Pousada de Portugal que saiu no último número da Evasões.

Ultrapasso em passo lento um mercedes-classe-s último modelo onde um sujeito bem apetrechado de relógio de bracelete de prata e botões reluzentes de punho enfia o seu anelar esquerdo, provido de aliança de ouro, pela narina do lado de cá, em gestos circulares de uma meticulosa higiene exploratória, enquanto a sua mão direita encosta o seu bojudo e reluzente aparelho celular, carregado de WAPS, GPS, e-mail, 3G e demais gadgets do último grito da tecnologia, à sua orelha direita, que, se for simétrica, como é de prever, à orelha esquerda que não resisto a observar, será pelo menos tão avantajada e peluda como esta. Lá longe, e nunca mais fica mais perto, o écrã gigante do fim da auto-estrada de Cascais fere os olhos da multidão de sonâmbulos condutores suburbanos com ticks das manchetes dos matutinos e spots promocionais da nova telenovela da TVI.

Finalmente rolo a quarenta à hora pelo túnel do marquês (porque ninguém quer ser multado por andar a mais de cinquenta). Quatro fugas, vindos da estátua do nosso déspota iluminado, aceleram bruscamente mal a silhueta do minha carrinha assome à boca do túnel, antes que eu tenha a audaz ideia de entrar à sua frente na fontes pereira de melo. Eu que espere, que a faixa de rodagem é o seu reino. E eu espero, claro, entupindo, atrás de mim, a saída do túnel, e levando, como justa consequência da minha urbanidade inadequada, com um merecido e valente buzinanço do colega dos outros quatro, que também calhava estar de serviço e que levava um cliente apressado no regaço do seu mercedes com trinta anos.

Chegado finalmente ao parqueamento ao lado do escritório e largada a carripana, cruzo-me com o simpático e jovem cidadão das terras de vera-cruz que (o pobre) imigrou para terras lusas tão só para cuidar como caixa do estacionamento do saldanha residence. Com a sua caracetrística voz de falsete, deseja-me um colorido “um bom djia dji trabálho, sinhô Tchiagô”, com aquele sorriso derretido que não procura disfarçar a segunda intenção.

Subo o elevador ao som enjoativo do Jon Bon Jovi e sento-me à secretária, onde o meu pálido colega do lado, perito em créditos, débitos, movimentos contabilísticos e amortizações extraordinárias do activo imobilizado corpóreo, debita-me, como todos os dias, a automática, mas plena de bonomia, expressão:

Então, Tiago, que tal Tiago, tudo bem? Tudo bem, Tiago.”

Sem que eu lhe tivesse retorquido, é certo, mas o tipo dá de barato, sem estar longe da verdade, que eu lhe quisesse polidamente perguntar se também com ele estava tudo bem. Também ele, que tal, me deseja um bom dia de trabalho. De seguida, liga a um cliente e oiço:

Então, fulano, que tal, fulano, tudo bem? Tudo bem, fulano.”

Com esta, eu, que havia acabado de me sentar, levanto-me para um café no bar do escritório.

Aí, os meninos discutem a arbitragem do fim de semana e as meninas a fantástica deslocação ao IKEA ou o bolsar nocturno do bebé. O sócio de outro departamento cruza-se comigo, pergunta se “está tudo fixe”, para parecer um gajo bacano, e deseja-me, pois claro está, um bom dia.
Mais precisamente, um bom-dia-de-trabalho.

Devo dizer, com toda a franqueza e sem querer ofender ninguém, que já não aguento estas simpatias anódinas. Se se afastassem com uma saudação simples, como fosse “tchau”, “passar bem”, “vai à merda, porco suíno”, mas não, têm de proferir mediocridades neutras como “tem um bom dia de trabalho”. Mas quem lhes meteu na cabeça que a minha concepção de um bom dia passa por um jorna de cumprimento íntegro dos meus deveres laborais? Porque não estar antes virado para um óptimo dia pessoal e um dia laboral, digamos, rigorosamente merdoso?

Depois de uns quantos e-mails e infrutíferas tentativas de pagamento de honorários que me fazem sentir o cobrador do fraque, munido deste amargo estado de espírito matinal, desço para fumar um cigarrito lá em baixo, com vista para o mar de beatas que jaz sobre o asfalto da casal ribeiro, largadas pelos anónimos drogados de escritório, meus semelhantes.

Aproveito, já agora e en passant, para comprar o jornal desportivo, na expectativa de uma uns momentos de descanso intelectual passados a ler crónicas imbecis sobre o complexo mundo da bola, no acolhedor sossego do WC.

Aguarda-me mais uma fila.

Uma rapariga brasileira compra cartões telefónicos e pergunta pelo plafond, não entende nada do que o empregado responde e são tanto os seus perplexos “oi?” que a fila cresce imparável atrás de mim. Com isto, é já meio dia. O rapaz imediatamente atrás da minha pessoa lança os mais vulgares impropérios, à moda do Caixodré.

Mas que merda esta, dasse!”

Disfarço enquanto coço um olho, viro-me para o tipo, a ver o que se passa. Ele olha colérico para o telemóvel e tecla furiosamente, como se a sua intensa expressividade oral e gestual pudesse ter como consequência provável desencadear nos circuitos internos da geringonça um milagre da física. Como se lançasse uma faísca repentina que tornasse possível a almejada comunicação à distância para a qual o aparelho foi supostamente concebido.

Foda-se, merda de telemóvel, ó c…!”

Toda a fila, sem mais nada para fazer, pelo menos enquanto a brasileirinha recém-imigrada prosseguia com os seus loquazes e grandiloquentes “oi???”, olhava de soslaio para o desesperado rapaz.

A brasileirinha finalmente entende alguma coisa deste Português sem vogais, larga o poiso e avança a fila.

Avançando consequentemente também ele um lugar, o petiz consegue apanhar uma réstia de rede disponível naquela cave de centro comercial. Mal é conseguida a ligação, o tom de voz repentinamente baixa e adocica.

Estou, mãe? Mãe? — reverente e animado — Que saudades, mãe! Olhe, estou aqui perto, mãe! Há almoço para mim?

Pronto, está tudo explicado: era fome, o pobrezinho.

Mas uma fila tem muito que se lhe diga, ou que se lhe escreva. Uma singela fila dá pano para mangas. Basta observar, em vez de simplesmente ver.

À minha frente, o sujeito, temporariamente ao serviço nas obras do escritório do quinto andar do edifício, trajes de rude trabalho braçal contrastantes com o fatinho completo dos escriturários que o rodeavam (trajes mas não só, pois que o odor também era característico de um tipo de labor de carácter mais intensivo), protestava com o preço dos bens que pretendia adquirir: A Bola, o Correio e um maço de Marboro Vermelho (assim mesmo, Marboro sem “l”):

Cinco euros e dez”, informa o plácido empregado do quiosque.

Cinco éros e dez????”

Sim, amigo, cinco euros e dez.”

Atão, mas a quantos éros está o tabaco e o jornal?”

“Ó amigo, o tabaco aumentou, agora está a três-quarenta-e-cinco”

Três éros e quantos???”

Ai o c… Levemente desesperado com a espera, e sentindo que o empregado não estava a ter um bom-dia-de-trabalho, acometeu-se-me um raro gesto de solidariedade e fui em socorro do pobre do assalariado. Dirijo-me, cara a cara, para o honesto homem das cavernas e explico:

“Ó amigo, o tabaco está a três éros e quarenta e cinco ramazotes. Por isso é que a conta é de cinco éros e dez ramazotes”.

Vá lá que só o assaliariado percebeu a gracinha de burguês armado ao pingarelho. O trolha bem servido de musculatura não percebeu, mas pagou. Sem ressentimentos, espero que tenha passado um bom-dia-de-trabalho.

5 comments:

triss 9 de abril de 2008 às 22:07  

Ora então uma boa-noite-de-lazer, pois que agora são 22horas!
Agora que a minha vida dá mais uma reviravolta, não de 360º como diria a Paris Hilton, mas de 180º, vou passar muito mais tempo nos blogs, tanto a ler como a postar.

Agora a sério, ainda bem que escreveste qq coisa que me dá gozo ler-te. (porque é que será que isto me soa mal?...)
Oi?

W. V. D. 10 de abril de 2008 às 18:52  

tás a ver como é bom morar no Algarve, não temos nem metade disso, só brasileiros

Garf 11 de abril de 2008 às 16:32  

Pois é: bons dias não têm, normalmente, muito a ver com dias de trabalho. É por isso que, para os melhorar, inventamos tudo e mais alguma coisa - até ler "posts" de não sei quantos milhares de caracteres. São os prazeres possíveis para quem está enfiado no escritório. Continua por isso a "postar" com assiduidade.

Ah! E um bom resto de dia de trabalho!

Oi???

SC 1 de maio de 2008 às 12:11  

Palmas! O que eu me ri.

E viva o dia do trabalhador, que assim deu-me tempo para vir ler esta magnífica crónica.

Vertigo 13 de outubro de 2008 às 15:18  

e ainda disseste a do Éros Ramazottis...imagina que lhe davas com o Éros e Afrodites...

:D

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