31 de dezembro de 2007

Não fora a galinha, não era eu alfacinha


Passeamos pela aldeia, ando eu à cata da casa onde passei curtas temporadas da minha infância. Encontro-a, com o seu alpendre debruçado sobre o pátio onde os galináceos debicavam o grão de milho e me incomodavam o sono.

É hora de jantar e, cá fora, um jovem termina o passeio que deu com o seu velhote e ajuda-o a sair da viatura, largando-o, com um abraço carinhoso, à porta de casa. É o n.º 6 e o velhote é vizinho da casa dos meus verões longínquos. Comento para a minha companhia que se parece com o vizinho, o meu Primo Henrique, que Deus o guarde. Tem o mesmo chapéu de veludo preto, que antes me fazia sonhar com cóbois, o mesmo casaco negro gasto e a mesma camisa branca, bem abotoada no pescoço.


O velhote, guardando-me nos olhos, dá-me, polidamente, as boas noites.


Eu retribuo o cumprimento, em Roma sê romano e na aldeia as gentes falam-se, mesmo se nunca antes se viram. Encho-me de coragem e indago se ele conhecia o Senhor Henrique.
“Vamos lá ver, se estamos a falar dos antigos? Está a falar do Henrique Padeiro?”, pergunta ele no seu forte sotaque beirão – o leitor citadino que troque o duplo esse por xis, o esse solitário por gês, bote um u antes de algumas vocais e terá uma ideia.


“Olhe, isso não sei. Sei que era primo do José Ramos. Conheceu o José Ramos? Eu sou neto dele.”


Ele faz uma pausa, encolhe-se, põe a mão no peito (seria provavelmente sugestão, mas pareceu-me que se lhe marejaram um pouco os olhos), tira o chapéu e quase grita: “O José Ramos? Oh, homem, nem me fale no José Ramos! Então eu brincava com ele, fomos gaiatos juntos. Tinha eu catorze anos quando o tio o chamou para Lisboa.”


Ai, o José Ramos. Nem me fale no José Ramos.

“Um dia havia um jogo entre a Travancinha e o Seia. E o José Ramos tinha um amigo, éramos todos amigos, naquele tempo, mas havia assim uma rivalidade. E então, eles, que eram amigos, mas que no jogo era para levar a sério, combinaram que no fim do jogo ia haver um jantar para oferecer à malta. E que o Seia começaria a ganhar dois a zero mas que depois deixavam-se empatar e ficava tudo quite. Só que o Seia ganhou dois a zero e no fim não havia banquete para ninguém, nem para os de Seia, nem para os de Travancinha. Olhe, o José Ramos não descansou enquanto não houve vinho para todos e uns amendoins. E, quando estava já tudo a comer e a beber, perguntou um de Seia se ele também não comia. E sabe o que é que o José Ramos respondeu? Disse assim: “Agora, já não preciso. Não, agora já não preciso””, como se não quisesse partilhar a mesa. Como se quisesse apenas ensinar aos “lá de Seia” o que era a hospitalidade de Travancinha.

“Olhe, era danado, o José Ramos. Tinha um jeito para as beatas, vivia rodeado das beatas”.

A moçoila que estava comigo disse que o neto tinha a quem a sair…

O velhote fez um sorriso maroto e abanou os ombros, num meneio de sabedoria que os anos lhe deram, traduzindo o melhor que podia que ela se devia conformar com os genes malandros do avô.


E acrescentou “Pois, nos bailes as beatas vinham sempre à beira do José Ramos. Pudera, era um homem bonito!”

“Ai, nem me fale no José Ramos! Com ele, não havia fome, nem havia sede! Mesmo depois de o tio o ter chamado para Lisboa, ele continuou a cá vir. E só lhe digo, com ele não havia quem passasse fome, nem quem tivesse sede.”

Então, e como foi isso de ele ter ido para Lisboa?

“Essa é uma história de outros tempos, dos antigos. Então, o António Ramos, o tio do José, trabalhava na Câmara de Seia. Não era chefe, era apenas um empregado. Um dia, estavam os gaiatos todos para Seia, e foram atrás de umas galinhas. É que naqueles tempos não era como hoje, as galinhas andavam aí pela rua. E então perseguiram umas galinhas e, olhe, o António pegou numa galinha e atravessou-a”


A moçoila, para quem o velhote, respeitosamente, sempre dirigiu a conversa, perguntou: “Comeu-a?”


“Pois – confirmou – , atravessou-a. Só que o moço foi contar ao padre. E, claro, o padre contou ao dono. Que era o patrão na Câmara de Seia. E o patrão despediu-o. E então o tio António teve de ir para Lisboa. E quando o sobrinho fez catorze anos, chamou-o para junto de si.


Mas o José Ramos continuou a cá vir. E quando vinha, não havia sede, nem havia fome.”


Ai, nem me fale no José Ramos.

2 comments:

SC 1 de janeiro de 2008 às 14:18  

Adoro estas histórias.

Bom ano! :)

zé nuno 3 de janeiro de 2008 às 16:43  

Que história deliciosa! Vê lá se compilas isso num caderninho... E os derbies Torroselo-Travancinha? Isso é que era a doer :)

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