31 de julho de 2008

Retalhos da vida de um consultor

Ao almoço, os colegas demonstram o seu fino gosto literário: apreciam deveras Miguel Sousa Tavares, John Grisham, Margarida Rebelo Pinto e José Rodrigues dos Santos. Faltou o Dan Brown para completar o ramalhete, decerto porque a esotérica cá do escritório está de férias, relendo aquela coisa que elege o walt disney como o da vinci dos tempos modernos. Depois de um arrotinho de bebé proferido ao de leve, que a ninguém perturba, coitadinho, pois se ele sempre pede com licença, o sujeito tão simpático, tão enorme, tão suadinho, tão rosado, tão esburacadinho, questiona os demais sobre as deslocações cinematográficas dos outros tantos, ao que o então-que-tal, tudo-bem?, tudo-bem, que acaba de entrar com um simpático então-que-tal, tudo-bem?, tudo bem, retorque na que desde que se lhe nasceu o rebento, nunca mais foi ao cinema, a não ser, é claro, para assistir babado na companhia do seu sucessor aos grandes êxitos da dreamworks e estúdios disney, ao que a rapariga que faz tão bem as contas, tudo bem apontadinho, as tardes de sexta-feira a contabilizar os recibos de despesas que isto de trabalhar para aquecer é que não, informa que não vai de férias para a praia que o sol lhe dá comichões, fica cheia de borbulhas a pobre, em especial aqui no peito e no tronco, aqui no tronco, diz, explicando gestualmente, muito embora as mãos apontem o antebraço, outro comenta o jantar de empresa no faz-figura, que como o nome indica deu a impressão de só fazer figura, diz, aquilo era tudo "nova cuisine", era só apresentação, mas pouca substância, vá lá que o chefe é que pagou o balúrdio, para o ano há-de ser no fuso na arruda dos vinhos que aquilo é que é comer, posta de bacalhau do alto e costeleta de novilho, nem cabe no prato, e o chefe que manda cobrar ao cliente, e o cliente que não paga, e as reuniões de balanço, e os objectivos para o ano, o time bilding e coiso e tal, e se já vimos o porche novo do chefe, e eu comprei agora um plasma, que é para ver o indiana jones que baixei ontem da nete, e o então-que-tal saca da pastilha e masca-a com prazer, degustando cada reviravolta da shuingue game, que eu bem sei porque bem oiço, cada chupadela é de alto gabarito, e até parece que, sim, até parece que o então-que-tal, tudo-bem?, tudo-bem está regressando à infância, o pobrezinho, tal é o prazer com que ele revolve a borracha lá nas suas profundidades odontológicas, tanto que agora, ó supremo gozo, oiço com alarido o balãozinho a rebentar, trás!, ele há tanto tempo que eu não ouvia a pastilha a elasticar, a elasticar, até rebentar, e agora aspira os rebordos da dita de volta para onde a rebelde nunca devia ter saído, de volta para a sua boquinha, oiço tudo isto, e de volta à toca lá recomeça o ciclo, que nada se perde e o barulho pueril do então que tal perturba-me, confesso, não suporto, não aguento e para esta maçada toda só me parece haver uma saída:


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