29 de setembro de 2008

Retalhos de uma vida ficcionada

Amansado pelo caldo verde que a Velha, como todas noites, servira como ceia, chegava a hora mágica em que fazia as pazes com o dia.

A Velha sentava-se no cadeirão de palha e pregava à lareira, beijando de quando em vez o crucifixo, que segurava com força entre as mãos rugosas, salpintadas de manchas castanhas, como continentes num planisfério.

Orar terços, rezar novenas, rogar aos santos que acudissem numa cantilena monótona era tarefa que a Velha desempenhava amiúde, ora com aparente indiferença, ora num fervor que parecia conduzi-la ao centro do universo. Habituei-me de tal modo àquela ladainha contínua, que, se deixava de a ouvir, receava que a Velha se desfizesse em pedaços, temendo que a rotina sonora fosse a argamassa que juntava as peças frágeis do seu corpo mirrado. A oração parecia protegê-la e eu sentia-me protegido.

Tirando as orações, pouco mais dizia. Mas, acabado o terço da noite, colocava a minha nuca no seu colo e os nossos rostos brilhavam com os sonhos que lhe revelava. Era só depois da ceia e da oração que lhe seguia que a Velha ouvia o que eu tinha para contar. Nunca os punha em dúvida, por mais absurdos que pudessem parecer, embora, quando uma noite lhe perguntei se os sonhos se tornavam realidade, ela respondeu-me

“Se não os partires”

“E como os posso partir?”

“Se te agarrares a eles com muita força.”

3 comments:

Vertigo 13 de outubro de 2008 às 15:14  

Adorei o retrato...mas o "Velha" é um pouco agreste...duro. Parabéns bela posta.

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