7 de novembro de 2007

Retalhos da vida de um consultor



Eles de gel, tez de cal, camisa amarela e gravatuncha verde, sapato de borracha, que é mais confortável, discutem com o calor dos grandes debates de quantos milissegundos é feita a transmissão de dados por satélite e as suas vantagens e inconvenientes face à tradicional transmissão por cabo. Elas, colar de crucifixo, túnicas cai-cai e alça do soutien à vista, portadoras de um agradável odor a perfume lavanda, descrevem cada pormenor da última visita ao pediatra que examinou o génio do seu rebento ou as graçolas que se disseram na última sessão do Por um Casamento de Sonho.

As piadas homofóbicas, conversas sobre a arbitragem nacional, os relatos dos Gatos Fedorentos, em alternância com os desafios que a nossa firma tem de enfrentar num quadro de acrescida concorrência, só superável com o espírito de equipa, combatividade e amor à camisola que nos distingue.

O branding, o client relationship, o targeting, os receivables, a performance, o team playing e o team building, o feedback, o role model e o management.

A moradia na Quinta da Marinha, o Lamborghini e o Rolex para uns, o apartamento em Telheiras, o BM e as férias em Punta Cana - "all inclusive", pois claro- para outros.

A imaginativa substituição de substantivos por verbos no infinitivo - "o que é importante é o gostarmos daquilo que fazemos, é o estarmos de bem com a vida e com nós mesmos". A proliferação dos inhos e das inhas - "Agora há uns separadorzinhos que até dá gosto arquivar, fica tudo arrumadinho".

A gaja que masca ruidosamente a pastilha e o tipo que acaba metade das banalidades que profere com a interjeição expressivo-interrogativa "..., ?".

E os e-mails em cadeia. As frases sempre terminadas com inúmeros pontos de exclamação. As apresentações (prazer em conhecer) em Power Point com letrinhas muito coloridas que vão saltitando pelo ecrã, acompanhadas daquela musiquinha bonitinha tão apta para limpar o cuzinho. Os e-mails a pedir sangue, a requerer pedaços da nossa medula, se alguém viu a criança desaparecida, pobres dos pais, imagine que isso lhe acontecia a si. As correntes de solidariedade com as vítimas do Darfur, do Tibete, da Birmânia ("Olha que não é Birmânia, é Myanmar", ai mas a geral cultura do fulano), a Maddie, as fotos do trágico acidente rodoviário na A23, o vídeo do Cristiano Ronaldo, a localização dos radares na A1.

Procura-se bazuca, com munições. Providenciam-se alvíssaras.

7 comments:

Anónimo,  8 de novembro de 2007 às 00:35  

Genial a banalidade dita de um escritorio afinal igual a tantos os outros em tantas partes do Mundo!

Anónimo,  8 de novembro de 2007 às 16:26  

post maravilhoso. adorei!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!(toma.)

zé nuno 9 de novembro de 2007 às 13:29  

É pá, isso está assim tão mau?

W. V. D. 10 de novembro de 2007 às 21:57  

ai, ai ,ai a minha vida.
Atira-te ao mar e diz que te emperrarem...

triss 13 de novembro de 2007 às 01:49  

E no entanto, apesar do cenário do trabalho e dos colegas, tu andas acordado não andas? Pelo menos parece-me:) Tás lá ogait.

Garf 15 de novembro de 2007 às 15:41  

Vá lá, vá lá: os mais coitadinhos têm BM e apartamento em telheiras. Pelo que me entra todos os dias pelos olhos a dentro, as desigualdades neste país (valor fundamental do estado inscrito na Constituição) continuam a ser gritantes.
Ainda assim, os meus parabéns por um post muito bem escrito e pertinente.

Garf 15 de novembro de 2007 às 15:42  

Vá lá, vá lá: os mais coitadinhos têm BM e apartamento em telheiras. Pelo que me entra todos os dias pelos olhos a dentro, as desigualdades neste país (valor fundamental do estado inscrito na Constituição) continuam a ser gritantes.
Ainda assim, os meus parabéns por um post muito bem escrito e pertinente.

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