16 de novembro de 2007

Requiem da posta

Pelo MCP, o único leitor que sente falta das alarvidades que aqui são escritas (será mal de emigrante, mas isso com o tempo cura-se, suponho) me penitencio pelo longo interlúdio nestas lides. Garanto-vos que não se trata de preguiça, timidez ou, sequer, falta de inspiração. Preguiçoso serei bastante, mas apenas quando se trate de tarefa com contrapartida monetária. Tímidez é qualidade que não possuo (de muitos cuidados me teria livrado se a tivesse na medida certa). A falta de inspiração é manifesta, mas não me tem impedido de escrevinhar estes disparates que, pese a vossa inteligência, persisteis em ir lendo.

Não, não se trata disso. É mister de outra cousa. A causa da minha recente apatia prende-se, antes, com um defeito que carrego comigo desde pequenino: sou demasiado piedoso (como repetidamente me acusa a perspicaz Miss Ao Léu) e saudosista (defeito que partilho com o ilustre autor desse blogue tão mais interessante do que este).

Ora, tenho para mim que um blogue não passa de uma versão moderna de um palimpsesto. Para o leitor que o ignore (e tendo em conta a insensatez do conteúdo das palavras deste escriba, não será de admirar que o leitor médio deste Wordaholic o desconheça), um palimpsesto é uma página manuscrita cujo conteúdo foi apagado (mediante lavagem ou raspagem) e escrito novamente (in Wikipédia). Antes de Guttenberg e da Portucel, o papel era mais raro do que é hoje um jogador decente do Sporting. Por isso, os copistas grafavam os textos e as ilustrações em papiro, e, depois dos textos terem sido lidos por um número suficiente de leitores, raspava-se a camada de tinta e reutilizava-se o papiro para novos textos. E por aí fora. Os escritos antigos tinham, pois, o fado merecido, consoante a respectiva qualidade: ou se perdiam para toda a eternidade ou perduravam na memória dos leitores.

Ora, o que é um blogue senão um palimpsesto digital? Como o espaço visível de um blogue comporta uma quantidade limitada de texto, quanto mais frequentemente se escrever novos posts, mais cedo os anteriores se evaporam. E, ainda que exista um truque chamado arquivo, alguém acredita que o leitor de um blogue deste calibre se dê ao trabalho de o ir catar à procura de alguma pulga, perdão, texto de jeito?

Ora, por muita bosta que seja cada posta, um tipo afeiçoa-se. As nossas postas são como os nossos filhos, nunca vemos os seus defeitos. Aquela posta inspirada, aquele comentário pertinente, aquela raiva tão expressivamente expressada, aquela piadinha tão singela, tudo irá com os beleléus no prazo máximo de, digamos, três semanas, RIP.

Por isso tenho sido poupadinho, como sugerem os nossos governantes. Tive pena das minhas postas. Mas se, como é provável, achardes toda esta tese uma parvoeira pegada, não vos apoquentais. Seguirei o conselho de Vossa Senhoria e escrevinharei com maior regularidade. E brevemente estas linhas terão tido o destino adequado: a obnubilação.

4 comments:

triss 16 de novembro de 2007 às 19:45  

Olha que o MCP não é o único leitor que gosta das tuas postas! (isto não soou nada bem pois não?)

Anónimo,  17 de novembro de 2007 às 23:52  

Triss afim de evitar confusoes eu gosto dos posts e nao das postas do nosso postador...

Meu caro em primeiro lugar pela tua referencia a minha pessoa agora que me encontro desterrado, longe da patria lusa e benfiquista!Essa ideia do palimpsesto digital transparece outrossim um certo romantismo estrutural (por oposicao a circunstancial), massa de que o meu amigo e feito...

Ja dizia o poeta, transforma-se o postador na cousa postada... talvez nao fosse bem assim... o que interessa e que enquanto leitores fieis fazemos coro pedindo mais posts!

Abraco

MCP

W. V. D. 19 de novembro de 2007 às 10:07  

ele é timido senhor, não o julgueis com tamanha severidade...
ele é malandro e vai para os copos em vez de escrever no seu fabulástico ( esta não está na Wikipedia ) blogue

zé nuno 19 de novembro de 2007 às 15:50  

Palavras caras, meu caro... Já diz o ditado: quem não escreve, esquece - ou lá o que é!

Vai postando, postas ou não...

Nota: Eu prometo que lerei a saga do Rei Narigão... :)

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