20 de agosto de 2007

Afectos

Comentando a visita à colecção Berardo, um amigo meu, chocado com a coisa, declara exaltado: "Epá, uns paralelipípedos alinhados em formação de quadrado é arte? Porra, meus queridos Van Gogh, Gauguin, Picasso, no limite até o Dali, que já é um bocado esquisito para o meu gosto. Se o tipo gosta de torrar dinheiro, antes comprasse três jogadores decentes para o Benfica!".

Mais tarde, depois de me terem apaparicado com um divino e tão tuga arroz de marisco, ele e a sua mais-que-tudo obsequiam-me com uma visita ao meu modesto lar. Perguntando esta se o sino da igreja próxima me perturbava o sono, eis que ele, voz colocada e tom galante , uma mão no peito e a outra erguendo-se para o céu, declama:

"Ó sino da minha aldeia
Dolente na tarde calma
Cada tua badalada
Soa dentro da minha alma

E é tão lento o teu soar
Tão como triste da vida

E o resto já não sei".

É gratificante ter amigos assim, com convicções artísticas tão seguras. E é um privilégio ainda maior ter dado o pretexto para mais um momento de flirt à moda antiga.

É do Pessoa, pois. E o poema continua assim, caro JNP, que a net, essa preciosa muleta, não me deixa fazer fraca figura:

"Que já a primeira pancada
Tem o som de repetida

Por mais que me tanjas perto
Quando passo, sempre errante,
És para mim como um sonho
Soas-me a alma distante

A cada passada tua,
Vibrante no céu aberto,
Sinto mais longe o passado,
Sinto a saudade mais perto."

Se musicasses isto, tínhamos mesmo homem.

3 comments:

JNP 21 de agosto de 2007 às 20:14  

Tempos houve em que sabia o poema de cor e salteado, mas a memória já não é a mesma desses tempos... :(

Anónimo,  21 de agosto de 2007 às 23:14  

já conto 3, os visitantes...

Anónimo,  22 de agosto de 2007 às 09:40  

A arte contemporânea precisa de uma boa esfrega nos preconceitos!

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