18 de novembro de 2008

) (

Terminado o encontro fortuito, que um técnico apelidaria por coito, de modo a abarcar não só o processo, mas todas as possíveis consequências, ele virou-se para a esquerda, ela para a direita.

Os amantes deram as costas um ao outro no leito e os seus corpos formaram, talvez até conscientemente, uma simbólica borboleta )(

A respiração de ambos foi aplanando e acabaram por embalar na sinfonia colectiva e imutável da cidade, um canto suave, abafado quem sabe em que medida pelas venezianas da janela e pela culpa.

Ficaram assim umas boas duas horas, naquele silêncio recheado, até que ela se levantou com elegância, num capricho de leveza ou num impulso de dignidade, amputando a borboleta da sua asa direita )

Com aquele passo de dança, certo é que fechou um parêntesis de beleza efémera e retomou as rédeas da sua continuidade essencial.

Ele foi deixando-se estar, permanecendo ainda no lado de cá - ou de lá, não é a verdade senão perspectiva? - , até que, com um suspiro, de dormência ou de alívio ou de aborrecimento ou de desilusão ou de nostalgia, se levantou por seu turno, dando o golpe de misericórdia na borboleta mutilada.

10 comments:

Vertigo 18 de novembro de 2008 às 20:05  

Lindíssima a efemeridade retratada nesta tua poesia narrada...

"A respiração de ambos foi aplanando e acabaram por embalar na sinfonia colectiva e imutável da cidade..."

Adorei o texto. Mesmo...

Vertigo 18 de novembro de 2008 às 22:06  

Continuo a adorar o texto...

Vertigo 25 de novembro de 2008 às 10:25  

Não querendo apressar o processo criativo, para quando um novo texto ao estilo deste?!

Saudações

Niki 25 de novembro de 2008 às 11:14  

Não resisti, li novamente aquilo que para mim se tornou numa pintura.

Parabéns.
É simplesmente maravilhoso.

Ogait 25 de novembro de 2008 às 11:38  

Obrigado, Niki. Ainda bem que gostas. Vertigo, a inspiração não bate à porta todos os dias. Além do mais, tenho de ganhar a vidinha.

Vertigo 25 de novembro de 2008 às 16:09  

Não quero parecer chata...foi so pq até agora acho que foi mesmo, do que li, o teu melhor texto...pelo menos do meu agrado...

Agora vá...faz-te lá a vidinha...

Garf 3 de dezembro de 2008 às 17:29  

Ainda gostava de saber de onde é que vem a inspiração que normalmente os teus textos demonstram: fabuloso!
Estou cada vez mais expectante por aquele abençoado almoço...

Ogait 3 de dezembro de 2008 às 21:54  

Garf, sei lá de onde isto vem. Do que observo, é tudo. Vamos lá combinar essa almoçarada, então.

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