26 de fevereiro de 2009
19 de fevereiro de 2009
Retalho
Uma nuvem manhosa surpreendeu-os no caminho, deixando que o sol os vigiasse por detrás da espessura, a espaços. O cavalo de ferro relinchava, as rodas queixavam-se dando golpes como coices, como se de súbito os seus mecanismos tivessem produzido um artificial instinto de sobrevivência e se quisesse libertar das rédeas do motard inconsciente que o lançava a toda a brida, disparada como um projéctil furioso pelas estradas de Monsanto. Quente, imóvel, sonolento no bafo, o bosque, revelado às claras, apavorava-a, como se a luz do dia concretizasse os pinheiros, eucaliptos, amendoeiras e demais obstáculos verticais que, na obscuridade, ela evitava com imprudência ágil, obedecendo ao pulso firme do dono. O motard conduzia-o por uma curva longa, o dorso quase raspando o asfalto, e enfiava-a agora pela descida até ao grande viaduto. Não oiço nada, pensava, só o cantar agudo dos pneus, não sinto nada, só a vibração dos metais, em ziguezague serpenteio entre veículos, carro após carro após carro, o vento esbofeteia-me a cara, o peito comprimido contra o ar feito uma muralha, o rosto é plasticina contorcida, vejo o meu caminho, encolho os traços que pintam as bermas da estrada e transformo-os numa linha só, carros e camiões, navego-os como uma bala, pneus, ligas leves, os espelhos revelam sombras de rostos assustados deixados para trás, desvio-me desses elefantes com rodados longos no lugar de patas que me passam ao lado, galgo esta curva e vou galgar a próxima, cada vez mais depressa, o motor quente quer voar, o meu cavalo de ferro, borracha e combustível dá um salto levantando a dianteira, o guincho, a borracha queimada entra-me nas narinas, é uma droga, é uma doga que acelera pulsações, o coração bombeia fluidos, sangue e seiva e adrenalina, ritmo sincopado com pistões e válvulas, um coração nervoso que bombeia e bombeia e bombeia, e passo este gajo e agora o próximo, e passo o vento e passo os pássaros e tubarões prateados e cães atravessados no caminho, e as figuras e os rostos e os corpos, e assim não sinto mais nada, e nesta vertigem não penso em mais nada, e nesta vertigem não penso no que ficou por te dizer, que devia tê-lo dito mas estava bêbado da tua beleza, que a minha pele tem memória das tuas mãos que nunca me tocaram, está impregnada do perfume que só ao de leve senti, que o meu tacto sente as tuas vibrações, que as tuas conquistas são as minhas derrotas, cada encontro com a Lisboa em penumbra está marcada pelos teus restos e rastos, por tua causa amo agora Lisboa como quem ama uma mulher de rosto desfigurado, tudo em mim é compostura, compostura, compostura e medo, devia ter-to dito, é um crime não to ter dito, é um crime não te ter falado dos diamantes que nadam nos teus olhos, esses olhos pardos que em plena ausência me atormentarão todos os meus dias, devia ter-te dito que, longe de ti, tu e os teus olhos cinzentos serão para sempre as testemunhas oculares dos dias iguais que se seguirão, um domingo único e solitário, sei-o de antemão, tu e os teus olhos atestarão que as mil ruas de Lisboa que percorrerei serão uma única ruína, os teus olhos ausentes confirmarão que passarei os meus dias lendo páginas rançosas de livros por escrever, rumo a um final previsível que não será feliz, em tudo o que importa tento não pensar por entre a vertigem do galope deste fiel cavalo de metais, borrachas e gasolinas, é inútil, tenho de parar. A fera de ferro calou-se. E agora? O eco deste silêncio pesado rebatido pelos muros e ruínas de Lisboa rompe-me os tímpanos. A minha vida esvai-se, como o óleo que pinga do escape. E agora? Devia ter-to dito.
Read more...7 de fevereiro de 2009
Retalho
Foto saqueada daqui
Voltou a esticar a mão para o peito do corpo deitado a seu lado, e não sentiu nada. Reflexamente, o seu próprio coração pareceu deixar de bater.
Henrique estava inconsciente, pensou. Voltou a chamar por ele, num sussurro, as suas cordas vocais engasgadas pelo horror. Forçou-as até à dor e saiu-lhe (quase audível) o nome do lavrador.
Não lhe respondeu. Permanecia inconsciente. Permanecia ferido. “O que é que eu faço, o que é que eu faço, meu Deus?”, perguntou-se.
Gritou, tão alto quanto pôde, por socorro. Esperou uns momentos e voltou a gritar. Apenas as gotas de água afagando a cama de folhas mortas lhe respondiam.
Conseguiu num esforço desmesurado pôr-se de pé, contrariando ardores afiados que lhe prendiam as articulações e agulhas pontiagudas que lhe inflamavam o cérebro. A tontura quase a levou de novo ao solo.
Endireitou-se e olhou em frente para o tronco claro dos grandes choupos, únicas testemunhas vivas do seu pânico. É claro que não se atrevia a olhar de novo para o corpo do amante. Queria conservá-lo naquele estado de inconsciência: temia que mais um olhar, ainda que de relance, confirmasse o pior. Ou levasse ao pior.
De pescoço inclinado para as copas altas dos choupos, tacteou procurando, sem olhar, os fósforos com que Henrique acendia os seus cigarros e que sabia que trazia sempre no bolso das calças.
“É tudo medonho quando se olha no escuro”, pensou. “Quando puder ver direito, verei os seus olhos abertos – nada se passou, tudo está bem.” Mas, no fundo, temia abrir os olhos.
Um tímido raio de luz enganou a escuridão quando Máxima riscou os fósforos, protegidos da chuva pela flanela grossa dos bolsos de Henrique.
A luz envolveu o espectro inteiro no curto momento em que o processo químico da queima atingiu o seu expoente. Aí os choupos confirmaram, com o sangue-frio feito de seiva, que, de Henrique, restava apenas um resto de corpo. Máxima, com o sangue-quente feito de ilusão apaixonada, abrigou-se de novo no breu que se seguiu ao apagar do pau de fósforo. Máxima entrincheirou-se na escuridão, sentindo-se protegida pelo velo, dela hesitava em sair.
“Não, não é possível”. Decerto não teria visto bem àquela luz tímida. Henrique estaria apenas desmaiado.
Mas se continuasse assim, morreria mesmo, esvaindo-se lentamente em sangue como o suíno na matança.
Uma voz interior, a mesma que contra a sua vontade havia antes balbuciado o nome de baptismo do amante, dizia-lhe, no entanto: “Por favor, aceita, aconteceu uma desgraça. Os desígnios de Deus são insondáveis, seja feita a Sua vontade.”
“Cala-te!”, gritou Máxima, e desta vez de viva voz.
“O que fazer”, disse baixinho de si para si. “O que fazer? Não é verdade, não pode ser verdade, tenho de buscar socorro antes que seja tarde demais”, sussurrava, sentindo calafrios.
“Se ao menos aparecesse alguém. Se ao menos algum pastor viesse atrasado da recolha”. Mas Máxima pensou que um pastor não lhe serviria, mesmo que viesse, o que Henrique precisava era de um médico. Tinha de ir em busca de um, precisava desesperadamente de encontrar nestas paragens uma casa com um telefone que lhe trouxesse um médico, e a estas horas, e imediatamente.
Mas e o que fazer, deixar Henrique ali sozinho, inconsciente, à beira da morte? E se o homem acorda apenas para se aperceber que vai morrer sozinho? Melhor será fazer-lhe companhia, tranquilizá-lo, chamar por ele, despertá-lo?
Momentos intermináveis passaram, Máxima aninhava-se, como uma criança, num limbo de indecisão. Até que, num assomo de consciência adulta, Máxima percebeu que tinha de ser ela a pôr mãos à obra. Agora que Henrique jazia ao seu lado, não restava ninguém que pudesse decidir por ela.
Decidiu-se, pois, beijou a testa – singularmente gelada - do amante e trepou o monte até à estrada. Não foi difícil dar com o caminho, bastou-lhe seguir as pegadas de metal e borracha dos destroços. Dirigiu-se para norte, dando costas à Estrela, em sentido contrário ao rastro de entranhas metálicas que o Mercedes tinha antes cuspido. Não se lembrava de ter visto sequer um abrigo de pastor, quanto mais uma casa com cabeça, tronco e membros e a porcaria de um telefone que lhe permitisse chamar uma ambulância.
Mas Máxima era impelida pelo desespero, caminhando em duelo quixotesco contra todas as probabilidades. Naquelas circunstâncias, não havia outra alternativa suportável: Máxima não esperava menos do que um milagre.
E lá ia ela a passo ligeiro, tanto quanto a teimosia forçava as pernas entorpecidas.
Tentando fazer ouvidos moucos às vozes que a perseguiam.
Tapou os ouvidos com força, a tal ponto que sentiu os lóbulos a arder. Debalde, porque era da sua mente que aqueles sons medonhos lhe chegavam, não das copas escuras dos castanheiros que agora lhe ensombravam a caminhada: era o seu cérebro traiçoeiro que produzia os gemidos de Henrique chamando por si. Teria ele acordado e ela o largado abandonado nas silvas, o sangue diluindo-se na morrinha?
Fazia por não os ouvir, do mesmo modo que o pastor faz ouvidos moucos ao grunhir medonho da ovelha predilecta que foi abatida para a ceia de Natal. Era preciso não dar ouvidos ao desespero de Henrique deixado para trás, de outro modo não haveria para este remédio. Ainda assim, cedia o passo quando o cérebro lhe pintava uma imagem mais nítida de Henrique despertando e sofrendo eremita.
Quando se apercebeu das suas hesitações, acelerou o passo, lutando contra a sua imaginação. Era urgente ter uma fé absolutamente cega.
Estugou o passo, mas, mal tinha silenciado, à força de uma teimosia de paquiderme, os bramidos informes do amante moribundo, desenhou-se no seu pensamento uma imagem, nítida, precisa, acutilante, imóvel.
A memória tinha, vencendo facilmente a sua vontade, revelado, com precisão de bisturi, uma fotografia, iluminada à luz do fósforo que há momentos tinha aceso, dos lábios de Henrique: gretados, secos, pálidos, pardacentos.
Incolores.
Nesse preciso momento, discerniu pela primeira vez com uma clarividência de assombro: é assim, a morte.
Sentiu-se só, Máxima, enquanto percorria mais uma centena de metros da Estrada municipal sem avistar nem uma choupana. Sentia-se só, Máxima, enquanto a sua mente imaginava a respiração moribunda do Henrique deixado para trás, querendo, à beira do juízo final, sussurrar-lhe, por fim, palavras de ternura e de arrependimento.
Forçou-se a recordar a voz ríspida e cortante do seu amante, já tão vaga na reminiscência, apesar do pouco tempo que passara desde o último momento em que a ouvira. Forçou-se a ouvi-la, a voz seca do seu amante. “Enquanto a ouvir”, pensou Máxima, “não estou sozinha, enquanto em mim o ouvir. Há um fogo que a sua voz ateia, e essa luz está aqui, comigo, enquanto caminho”. Essa luz trazia-lhe vida, estava grata a Deus pela vida calorosa que essa luz lhe trazia. Havia mais vida nesta luz do que em toda a sua existência.
Seguia o seu passo, mais uma centena de metros, sem avistar vivalma, mas sonâmbula, perseguindo o improvável em que voltava a ter fé. A luz abstracta que levava consigo protegia-a contra a figura concreta que tinha deixado para trás: um corpo inerte, com todos os sinais de um cadáver.
A violência da palavra “cadáver” que Máxima sentiu a pairar por sobre si como uma bigorna moral prestes a esmagá-la fê-la voltar a si. “Cadáver”.
De repente, numa espiral de vertigens, mais do que sozinha, sentiu-se fora de si mesma. Sentiu que se observava, crescia grotescamente para dimensões transcendentes, expandindo-se até que flutuava muito acima do seu corpo e da matéria que a rodeava. Viu-se deambulando, sem rumo, em busca de coisa nenhuma. Nada poderia evitar o que acontecera. A voz não vinha de Henrique, vinha de dentro do seu pensamento, não havia candeia que lhe alumiasse o caminho, apenas trevas cercando-a.
Isto não vai dar a lado algum. E se encontrar alguém, o que já de si não é provável, o que lhe digo? Que tive um acidente com um sujeito às oito da noite numa estrada perdida da Beira e que o tipo está moribundo (ou estará antes que lá cheguem)? Perguntar-me-ão quem sou e o que faço. E outras perguntas mais, que antes que acabem já o Henrique terá ido desta para melhor.
E que devo responder? Não lhes direi nada, não tenho nada que responder.
Ouviu vozes à distância. Quase gritou pelo socorro por que tanto ansiara. Calou-se no último instante.
2 de fevereiro de 2009
Retalho
Abandono o pátio a uma hora insolitamente matutina, o selim da bicicleta cintila de geada. Fecho bem o capuz com o cachecol, exalo fumo, esfrego mãos e, ala, pedalo pelo asfalto prateado de orvalho. Rola e rola a roda, a corrente ruge de ferrugem fazendo-me companhia pelas ruas ocas. A Cerca Moura perdeu o ponto de fuga, este Tejo abraçou-a numa nuvem grossa e cinzenta, um hipopótamo de vapor chegando-se a ela como se lhe portasse um recado de Poseidon. Nela mergulho e, como São Vicente e os seus corvos, também eu desapareço. Desço às cegas a colina, os trilhos do 28 servindo-me de cão-guia. Muito para recordar, muito cedo para sentir. Lisboa, assim vestida em brumas, é furtiva como uma amante. O ar está gelado e com os olhos em lágrimas de vento busco algum indício. Para lá do velo, vislumbro um varandim, a que se segue outro, aqui uma portada se abre, uma janela aguarda que lhe subam o pano, para que a peça deste dia de Janeiro se encene. A vitrina de um café ao pé da Sé mostra a primeira fornada, mas não só. Nela se encosta o meu reflexo: conturbado, revolto, sombrio. Eis os despojos da noite sem nome, aquela que agora começo a recordar com o fôlego suspenso, um novelo de arame na garganta, a face rubra de vergonha. E enquanto o nevoeiro levanta desnudando a cidade dos seus pudores – vergonha! –, outro vulto se fixa na vitrine: comeria com os olhos o produto fumegante da pastelaria ou sondaria no meu olhar a marca do delito?
26 de janeiro de 2009
Retalho
Recolhe as moedas todas espalhadas pelo passeio e pára de desafiar os transeuntes com aquele olhar de incriminação, a rapariga dos sapatos descascados e das roupas dois números acima da sua actual medida. De súbito, rompe num pranto e pede-me cigarros (em vez das moedas que me enchem o bolso pequenos dos jeans importunando o osso cujo nome desconheço, aquele que fica na esquina da anca). A mudança de alvo terá sido provocada por uns sujeitos que se aproximam, apercebo-me quando a rapariga se enrosca nos seus trapos e, com um arrepio, lança o canto do olho para os dois impecáveis polícias que cirandam ali pela esquina com os seus asseados uniformes azuis: pensará a rapariga estarem fazendo ronda aos seus metaizinhos preciosos e em serviço a bófia pelo menos ainda não fuma, tal mancharia a limpeza da corporação, o que não quer dizer que não roube, e a rapariga essas coisas lá terá aprendido nas aulas que a rua lhe deu, treinando-a para desmascarar o perigo, use ele o disfarce que lhe aprouver, que mil formas toma o Diabo. O vagabundo que lhe faz as vezes de um parceiro insiste em soltar-lhe imprecações ininteligíveis (que a rapariga visivelmente compreende) não satisfeito por lhe ter aplicado um violento pontapé no caixote de cartão castanho onde antes jaziam as economias (comuns?) recolhidas ao longo do dia. Finalmente vai-se, numa ira tamanha, sei lá eu porquê (sabê-lo-á a rapariga dos olhos de gato, mas entre marido e mulher, já dizia o outro).
Aproximo-me dela e faço como se me fosse sentar.
"Posso?" – indago com deferência, a modos de quem pede para entrar no hall da casa.
22 de janeiro de 2009
Retalho
Assim, Carlos, por uns tempos, trabalhou, comeu e dormiu por entre as cinzas da Grande Fábrica Panificadora na Grande Cidade. Pegava no serviço às oito da noite e não o largava antes de o sol retomar a sua descida. O seu trabalho consistia em alimentar a enorme fornalha e limpar a escória sobejante, alimentar a enorme fornalha, limpar a escória sobejante, alimentar a enorme fornalha e limpar a escória sobejante. Enquanto se ocupava destas tarefas, outros homens encostavam-se às mesas de pedra e amassavam farinha, amassavam farinha, davam-lhe forma, davam-lhe forma, amassavam farinha, amassavam farinha, davam-lhe forma, davam-lhe forma. Os braços dos trabalhadores e o calor da fornalha produziam os únicos sons: ninguém dizia palavra, o que seria, aliás, inútil, se ninguém falava a mesma língua.
Read more...16 de janeiro de 2009
Amor de pai ou como Oscar Wilde reencarnou ontem em Lisboa
Ontem, aniversário de um tipo já graúdo, aos olhos dos progenitores ainda sempre o miúdo.
A mãe celebra a ocasião, como é de tradição lá em casa, com um belo discurso recheado de emoção, aparentemente contida dentro dos muros da eloquência, correcta construção frásica e singular ordenação de ideias.
Desafiando a mesma tradição da casa, o irmão mais novo (fedelho que, abrigado pelo escudo protector do varão aniversariante, saiu, como é dos livros, o provocador inato da família) lança o repto ao pai: discurso!
Contrariando as expectativas, este não protesta, mira o filho mais velho e profere:
"Quando te vi pela primeira vez, pensei: como é possível amar tanto um tipo que nem conheço?"
15 de janeiro de 2009
13 de janeiro de 2009
26 de dezembro de 2008
Countdown
Faltam dois dias. Com estes e outros amiguinhos ansiosos por nos conhecer.
http://www.globalangels.org/fundraiser/Guludo/
23 de dezembro de 2008
19 de dezembro de 2008
1 de dezembro de 2008
Melting pot
Nesta grande Lisboa que eu amo há: uma tímida e explosiva virgem gótica, um jovem beirão assustado com a capital e voyeur por via das novas tecnologias, um louco-sem-abrigo-mendigo que apregoa tanto Confúcio como Nietzsche, um jovem padre que ama Bauhaus quase tanto quanto teme a Deus, uma senhora taxista que polidamente aldraba turistas ao ritmo de Grieg, um preto que odeia brancos mas também pretos sem raízes, uma esguia mulata que não se decide se ser preta se ser branca, um executivo norueguês que aterra em Lisboa com o peso de uma vida perfeita, um skinhead que tanto detesta pretos como adora animais, um romeno pragmático que trafica carne branca, uma doméstica brasileira que sobe, a custo, na vida, um contabilista então-que-tal-tudo-bem?-tudo-bem!, uma velhota que sofre das cruzes porque não quer sofrer do marido que Deus tem, um fadista que faz tours em lares de terceira idade, tias afogadas num mar de piedade e redenção, mercearias derrotadas por shoppings centers, shopping centers derrotados por hipermercados, hipermercados que democratizam o consumo de uma classe média em ascensão, a rua esquecida por computadores, colégios privados e condomínios fechados, afectos construídos por sms, telemóveis, portanto, facebooks, hi 5's e quejandos, é claro, o vídeo é uma arma, juízes sós e ministérios públicos, jovens que queriam mudar o mundo e se rendem ao gourmet e aos prazeres eternos da juventude, inconsequentes políticos bem intencionados, cachupa e pescada-de-rabo-na-boca e túbaros e caracóis, a luz alfacinha, o bolo rei ou o bolo raínha, o kremlin, o kubo ou o incógnito, alfama em guerra com alcântara, a buraca que não gosta do califa, hei-de encaixar o mergulho nesta amálgama ainda não sei como, também há os irreverentes criativos que não apreciam pragmáticos engravatados e vice-versa, depois os guetos e subsequentes guerrilhas escolares, até desembarques de refugiados com que ninguém contava, um armagedão à escala lusitana e, sobretudo, um punhado de amores possíveis e uma mão cheia de amores impossíveis. Talvez até um terramoto, isto fica por decidir. Tudo isto há na grande Lisboa que eu amo. Sobre tudo isto falarei, porque sim, e tudo isto resulta numa grande salganhada e o consequente o cabo dos trabalhos. Et pour cause, en ce blog il y a une pause.
Read more...27 de novembro de 2008
18 de novembro de 2008
) (
Terminado o encontro fortuito, que um técnico apelidaria por coito, de modo a abarcar não só o processo, mas todas as possíveis consequências, ele virou-se para a esquerda, ela para a direita.
Os amantes deram as costas um ao outro no leito e os seus corpos formaram, talvez até conscientemente, uma simbólica borboleta )(
A respiração de ambos foi aplanando e acabaram por embalar na sinfonia colectiva e imutável da cidade, um canto suave, abafado quem sabe em que medida pelas venezianas da janela e pela culpa.
Ficaram assim umas boas duas horas, naquele silêncio recheado, até que ela se levantou com elegância, num capricho de leveza ou num impulso de dignidade, amputando a borboleta da sua asa direita )
Com aquele passo de dança, certo é que fechou um parêntesis de beleza efémera e retomou as rédeas da sua continuidade essencial.
Ele foi deixando-se estar, permanecendo ainda no lado de cá - ou de lá, não é a verdade senão perspectiva? - , até que, com um suspiro, de dormência ou de alívio ou de aborrecimento ou de desilusão ou de nostalgia, se levantou por seu turno, dando o golpe de misericórdia na borboleta mutilada.
15 de novembro de 2008
11 de novembro de 2008
Retalhos de uma vida ficcionada
Pensa na primeira vez que respiraste: um vento imparável que te entrou pelos pulmões, te assoberbou de espanto e que devolveste com um furacão digno do génese. Que primeiro e marcante berro soltaste! Ainda não vias nada, mas revoltavas-te contra o frio da sala de parto, contra as mãos ásperas do médico que te seguravam enquanto choravas como uma hiena endiabrada, essas mãos que depressa desistiram para te entregar ao regaço sanguíneo da tua mãe, calando-te, permitindo que ouvisses pela primeira vez a voz vermelha, forte, do teu pai finalmente emocionado, por tua causa.
Já eu, recusei-me a respirar.
Não houve médico que me segurasse.
Não conheci o colo da minha mãe.
Não faço ideia onde parava o meu pai.
E não respirei.
Nasci apressado, sem aviso, um mês antes de tempo. Olhando para trás, o meu nascimento prematuro é uma metáfora perfeita do que seria o resto da minha vida: uma ultrapassagem a galope, passando ao seu lado. Vi a vida, mas não a agarrei. Toda a minha existência procurei recuperar o momento primordial da minha existência, o momento de um tal assombro que os pulmões, dotados de auto-arbítrio, se recusaram a funcionar.
Consegui-o uma única vez, tão brevemente como nos primeiros minutos da minha vida, no exacto instante em que me cruzei com um rosto frágil, que parecia caber na palma de uma só mão, um sorriso triste, uns olhos feitos de anis.
Por esse momento, tão breve como um relâmpago, fiquei sem fôlego. Mas ele parece durar para sempre, como a chaga de uma guerra para a qual fosses alistado sem a quereres combater.
9 de novembro de 2008
Retalhos de uma vida ficcionada
Lá no alto, um deus pequenino e solitário dá uma atmosférica dentada em algodão-doce:
Tal deus menor abocanha a nuvem, saboreia, degusta, fura a nuvem. Com a insolência que só a infância permite, espera,
(Faz figas),
Que alguém, lá em baixo, entenda o seu gesto,
Temerário.
Por seu turno, cá no solo, um puto, metido consigo mesmo, dá uma rasteira dentada no insecto:
Tal puto, abocanha, matreiro, perniciosio, uma formiga. Com a insolência que só a infância permite, espera,
(Faz figas),
Que alguém, lá no alto, entenda o seu gesto,
Temerário.
7 de novembro de 2008
Retalhos da vida de um consultor
É sexta-feira. Quando chegar a casa, Sérgio vai largar a mala no sofá, despir a farda de consultor fiscal, abrir o frigorífico para servir-se de um vodka tónico (Black Goose, não um vodka qualquer). Não, não vai, porque a bebé exige atenção, Sérgio muda-lhe as fraldas, dá-lhe o biberon e fá-la arrotar. A miúda adormece quando a mãe chega. Jantam. A miúda acorda. A mãe trata da arrumação e Sérgio embala o bebé. Este adormece. A mulher deita-se. Leva a miúda consigo. Embora ainda não tenha quarenta anos, Sérgio sente-se um veterano extenuado, um resto, uma sobra. Diz à mulher que já lá vai ter, faz um desvio no escritório e liga-se ao ITunes.
Nesta noite, Sérgio vai ouvir a música que fez da sua adolescência um período vibrante. Com os fones high-fidelity nos ouvidos, Sérgio grita os versos toscos de Rockaway Beach. Com esta música, Sérgio é transportado para os catorze, em que era conhecido por S Ramone e tinha formado uma banda com um pessoal punk, da Linha.
Estamos, pois, em 1985. Sérgio está de pé, em cima do divã do escritório, e toca uma guitarra imaginária. Faz pose de rock-star, dá saltos mortais, chuta almofadas e atira-se contra a parede. O som do seu instrumento de vento é real. Quase um vendaval. No poster que imagina pregado na parede branca, Joey Ramone (o genuíno) levanta o polegar em aprovação. O concerto é electrizante, inesquecível.
Na porta do quarto um toc, toc, que Sérgio não ouve. Quem pode interromper um solo arrasador como aquele? Quem pode parar a fúria punk de S Ramone, o prodígio da guitarra?
S Ramone, o menino lingrinhas e cheio de borbulhas, sente-se o tipo mais poderoso do universo. Agora, só falta aprender a fumar e entender qual a graça do sabor amargo das cervejas que o seu irmão mais velho costuma emborcar, umas atrás das outras.
Como rock star, sabe também que tem o engenho, e sobretudo o descaramento, para falsificar a assinatura do pai naquele desastroso teste de matemática. Afinal, para que carga de água serve a trigonometria? Um guitarrista não precisa de ir à faculdade, certo?
Sobre o ritmo de Rockaway Beach, S Ramone canta versos criados por ele, que surpreendentemente desencantou sem esforço de um canto obscuro da sua memória. O puto já escreveu canções sobre o fim do mundo, guerras nucleares, pais repressores e professores decapitados em salas de aula. S Ramone acredita no sucesso. Vai vender milhões de discos.
Troca a sua guitarra eléctrica de faz de conta por um violão de mentira. Como profissional do show business, S Ramone sabe que toda a boa performance precisa de um momento romântico.
Essa canção, a única que o Joey Ramone do cartaz não aprovava, foi composta para a Alexandra do 8º B e para a rapariga da capa da primeira Playboy que Sérgio tinha tido coragem de comprar, de cujo nome naturalmente não se lembrava, porque não era o nome que estava em causa.
S Ramone toca lúgubre. Canta o amor, a dor e o sangue escorrendo pelos corredores da escola. No refrão, narra uma cena de porrada no recreio. Até que o vencedor do duelo de boxe categoria pesos-abaixo de pluma (ele, evidentemente), entrega uma rosa para a Alexandra do 8º B ou para a rapariga da Playboy (dependendo da versão).
S Ramone atira a guitarra para a público. Agradece os aplausos e salta do divã. Anda de um lado para o outro, ouvindo a turba ululante ao som de “só mais uma, só mais uma”. Salta de novo para o divã e empunha a sua guitarra vermelha (era vermelha, pois).
Agora, voltamos a 2008. S Ramone transformou-se em Sérgio. Ele já sabe fumar e trata por tu o sabor amargo da cerveja. Em compensação, perdeu, totalmente, o contacto com a Alexandra do 8º B e nunca mais encontrou a sua velha e gasta Playboy.
Mas hoje, quando Rockaway Beach despertar a sua alma gasta, Sérgio vai saltar no divã e dedilhar o ar mais uma vez. Até que a mulher (de boca aberta de espanto) e a filha (de boca aberta de gargalhadas) irrompam escritório adentro, pensando se é mesmo aquele o seu marido e pai.
(para o chefe bacano)
Até para a semana. Ou até sempre.
3 de novembro de 2008
Um conto do imprevisto
(Cont.)
O cavalo, entretanto, acaba de engolir a pasta verde que lhe enchia a boca e agora, por um interminável segundo, volta a olhar, sem ver o horizonte. Baixa a cabeça com parcimónia (movimento que é seguido pelas moscas que não há modo de lhe largar as orelhas), esfregando a boca no chão húmido para se livrar de umas flores bonitas que lhe haviam ficado entaladas entre os dentes.
Amélia estava prestes a morrer uma vez mais quando o leitor faz uma pausa no drama, deixando-a suspensa, mas nem por isso expectante, consciente do seu inevitável destino. Marcando a página com intenção de lá voltar, o leitor fecha o livro e abre um exemplar raro da revista “O Cruzeiro”, saída ao prelo nos idos de 16 de Abril de 1878. Faz fé no que agora lê, com a consideração que lhe deve o prestígio do mestre Machado de Assis: numa crítica aí publicada, Machado de Assis, das alturas do Olimpo Literário que conquistou, profere a lapidar sentença, publicada preto no branco e constante de folhas: «“O Crime do Padre Amaro” é imitação do romance de Zola, “La Faute de l’Abbé Mouret"».
Em consequência, o leitor abandona definitivamente a leitura de “O Crime do Padre Amaro”, faz um esgar de desprezo e solta o livro às labaredas da salamandra com que aquecia os pés, condenando Amélia a uma morte desta vez diferente. Antes de sucumbir às chamas, Amélia pensa como desejaria conhecer a irmã francesa inventada por Zola e de quem nunca antes tinha ouvido falar.
Francisco Mendes está prestes a sair do bar quando, numa prova de que a vida é feita de acasos e imprevistos, a equipa visitante, de fracos pergaminhos, realiza uma daquelas proezas de que o futebol é fértil e que fazem dele um desporto de multidões. Contra todas as probabilidades, o trinco dos visitantes, cujos dotes técnicos se resumem no justificado epíteto de “carrega-pianos”, faz um movimento de ruptura que deixa os bem mais dotados atletas da equipa caseira pregados no relvado, de tal modo que o central da equipa hóspede, ferido no orgulho, derruba a pés juntos o adversário. Livre directo, último minuto da partida. Francisco Mendes olha para o televisor e dá um último gole no scotch. O livre é bastante mal cobrado mas o esférico é lançado numa improvável órbita que desafia as leis da balística. A bola ressalta nas costas de um defesa, o guarda-redes não consegue calcular a trajectória ziguezagueante, indo o esférico embater com estrondo na trave e de novo numas costas de um jogador caseiro, agora do guarda-redes, entrando consequentemente na baliza defendida pela equipa da casa e fixando o resultado final: um inacreditável zero um.
O lance incaracterístico e improvável é tomado por Francisco Mendes como um sinal: sai do bar disparado para a estação de comboios, nem sequer passando pelo apartamento para recolher os seus parcos haveres, e aí compra um bilhete só de ida para o apeadeiro transmontano.
A composição atravessará, manhã cedo, um pasto onde um cavalo velho vê a refeição interrompida pelo ruído do monstro circulante. Francisco Mendes, nesse preciso momento, está à janela, mirando o vazio com um olhar fundo, que parece preenchido de tudo o que não vê, como se os montes que lá ao longe o contemplam impregnassem o mirar humano do sentido da insignificância. Repara, contudo, na figura triste de uma pileca e parece-lhe (não sem incredulidade), que o animal baixa a cabeça à sua passagem, como que cumprimentando com sábia familiaridade um ser que, bem vistas as coisas, com ele partilha muito mais profundas semelhanças do que as anatómicas diferenças que aparentemente os separam.
31 de outubro de 2008
Retalho de um conto
Um velho cavalo rumina, rodando as largas mandíbulas em círculos. O cavalo tem cara de panorama. Olha para o vazio, carrega consigo um olhar dir-se-ia sem fundo, parece preenchido de tudo o que não vê, como se os montes que o contemplam impregnassem aquele olhar equídeo do sentido da insignificância. Por um segundo, parece notar alguma coisa, fracção de tempo em que pára de mascar a erva fresca, mas logo, percebendo que era a mesma árvore de ontem bailando agora com a brisa, retoma o seu eterno afazer com o vagar que os seus dentes gastos exigem.
Por seu turno, Francisco Mendes pede um whisky duplo ao balcão do Dez. Essa é a medida que concede ao tempo até que algo aconteça. Infelizmente para Francisco Mendes, o tempo está-se nas tintas para o seu whisky, o Dez não é um diner de Los Angeles, nem ele é figurante de um filme de série B e, como tal, finda a bebida, nenhum jovem casal de ladrões de trazer por casa ameaçará a freguesia brandindo pistolas e gritando “Everybody be cool, this is a robbery!”, como, num aparente paradoxo, Francisco Mendes desejaria. Francisco Mendes chegou a chefe de contabilidade em esforçados vinte e cinco anos de carreira. Nada de novo se passará neste fim de tarde, à parte talvez mais uma dose dupla com que medir o tempo e mais um jogo europeu que será transmitido no ecrãs reluzentes do Dez.
O whisky, o balcão do Dez e o futebol são mundos desconhecidos para Amélia, rapariga na flor da idade, viçosa, morena e alta. Amélia, ela, não faz mais nada senão representar à risca o seu papel, sempre que algum leitor (e não são poucos) resolve ler o clássico do século XIX, ressuscitando-a. Quando tal acontece, segue o destino que o escritor lhe traçou: vive um amor proibido, engravida, retira-se em consequência para uma quinta nos arredores da cidade sob a vigilância de uma beata fanática, redime-se à custa do único padre que se comporta de acordo com os cânones, até que volta a morrer, do mesmo parto, para percorrer igual via sacra sempre que alguém volte a folhear o romance. Uma adaptação cinematográfica quebrou fugazmente a sua monotonia, mas, como é sabido, o formato audio-visual é efémero e, de qualquer modo, o filme agudiza, em vez de amenizar, a fama de devassa que carrega como uma cruz. Ninguém mudará a sua sorte, o autor finou-se há uns bom cem anos.
(Cont.)
28 de outubro de 2008
E o Natal está quase aí ao virar da esquina...
Read more...
26 de outubro de 2008
Retalhos de uma vida ficcionada
Máxima tardava a responder. Nunca o chegou a fazer. Ia abrir a boca e assim a teve de deixar ficar, suspensa pela expectativa. Sentiu que voava, num improvável salto a galope. De boca ainda aberta, saltou do banco, sem apoio, tentando agarrar-se a qualquer coisa, a sua mão não conseguindo melhor do que fechar-se no ar vazio. A boca sempre aberta, fechou os olhos com força, a mesma força que gostaria de usar para fechar os ouvidos, se ao menos Deus tivesse assim concedido ao homem mais essa vantagem competitiva. Tal serviria para calar a singular orquestra composta de inconcebíveis guinchos de pneumáticos e terríveis acelerações de motores pairando no vácuo. Seguiu-se um som surdo de uma pancada, o baque da sua própria fronte contra uma parede de vidro estilhaçando-se, seguido de um silvo crescente, o som do seu corpo deslizando com o impulso por entre as finas moléculas da atmosfera. Transformou-se pois num projéctil humano disparado para o vazio, de tal modo que naqueles instantes nada via para além de um túnel de luz ofuscante à sua frente, sem que lhe vislumbrasse fim. Naqueles intermináveis momentos voadores, sentiu-se, como nunca mais se sentiria, independente, feita de si mesma, incomensuravelmente distante de tudo.
Pausa. Vazio. E pausa. E vazio.
Algures, o ruído de metais retorcidos por uma pancada brutal conseguiu penetrar de novo na sua consciência.
Voltou a si deitada num cama húmida de urzes, olhando para o cadáver de um automóvel, rodas viradas para o firmamento que não cessavam de girar, fumos saindo de entranhas mecânicas quebradas. Em contraste com a visão dantesca, o que agora ouvia era apenas o gotejar tranquilo da chuva morna que se esvaía, como ela, no cómodo tapete de musgo e urzes a que tinha ido parar.
O terror imobilizava-a. Não lhe doía nada, ainda que sentisse o gosto doce do sangue que lhe descia do nariz até aos lábios por acção lenta da gravidade. Deixou-se ficar quieta, fazendo por crer que tudo aquilo era um sonho.
20 de outubro de 2008
Retalhos de uma vida ficcionada
“Ao menos quando ela chegar não se vai pôr com temores de ser vista por coscuvilheiros. Quando está receosa fica danada, faz-se difícil”, pensou.
Se é que ela viria. Henrique pensou se estava impaciente por que ela viesse ou porque não aparecesse.
Olhou para o seu relógio: pouco passava das sete, mas o breu era opaco. O Outono tinha chegado sem aviso.
“Dou-lhe mais um quarto de hora”, disse para si próprio, “depois disso vou para casa e ela que se amanhe com quem lhe faça outro filho, a começar pelo impotente do marido, e que sustente o que já por cá anda. De qualquer modo, começa a perder o viço”, num monólogo consigo mesmo.
O relógio da vila tinha acabado de soar as sete e um quarto e Henrique, determinado em cumprir a jura que se havia feito, rodava já a chave da ignição, quando lhe pareceu vislumbrar alguém aparecendo por detrás da esquina do edifício. Desligou o motor e apagou as luzes. Seria ela?
Ela viu-o e apressou o passo na direcção do automóvel, rodando o pescoço para trás de quando em vez, à cata de testemunhas inoportunas. Não vendo ninguém, chegou-se com cuidados ao grande Mercedes preto.
Henrique saiu e abriu a porta do lado, um tudo-nada antes de tempo, precavendo Máxima da impaciência que a espera tinha provocado ao amante. O lavrador não estava habituado a depender dos outros.
Já Máxima, mãe solteira na época em que elas não existiam senão por obra do Demo, dependia totalmente dos outros, particularmente do pai do seu filho.
Dependia de Henrique Redondo e de quem lhe calhasse por sorte ao caminho: a propósito, Máxima não podia revelar ao seu amante que a demora devera-se aos avanços atrapalhados do director da fábrica a que ela fingia ir resistindo, num jogo do gato e do rato em que a presa é, evidentemente, o suposto caçador.
Ao longe, no ponto onde o caminho de terra se unia à estrada municipal remendada de asfalto, passou um vulto. Os amantes esperaram em silêncio, ansiando que o sujeito não notasse o carro camuflado sob a copa baixa dos pinheiros mansos. O vulto entrou no seu carro, estacionado no parque da fábrica, ligou o motor e fez-se à estrada.
“Quem era aquele?”, inquiriu secamente Henrique.










