31 de dezembro de 2007

Não fora a galinha, não era eu alfacinha


Passeamos pela aldeia, ando eu à cata da casa onde passei curtas temporadas da minha infância. Encontro-a, com o seu alpendre debruçado sobre o pátio onde os galináceos debicavam o grão de milho e me incomodavam o sono.

É hora de jantar e, cá fora, um jovem termina o passeio que deu com o seu velhote e ajuda-o a sair da viatura, largando-o, com um abraço carinhoso, à porta de casa. É o n.º 6 e o velhote é vizinho da casa dos meus verões longínquos. Comento para a minha companhia que se parece com o vizinho, o meu Primo Henrique, que Deus o guarde. Tem o mesmo chapéu de veludo preto, que antes me fazia sonhar com cóbois, o mesmo casaco negro gasto e a mesma camisa branca, bem abotoada no pescoço.


O velhote, guardando-me nos olhos, dá-me, polidamente, as boas noites.


Eu retribuo o cumprimento, em Roma sê romano e na aldeia as gentes falam-se, mesmo se nunca antes se viram. Encho-me de coragem e indago se ele conhecia o Senhor Henrique.
“Vamos lá ver, se estamos a falar dos antigos? Está a falar do Henrique Padeiro?”, pergunta ele no seu forte sotaque beirão – o leitor citadino que troque o duplo esse por xis, o esse solitário por gês, bote um u antes de algumas vocais e terá uma ideia.


“Olhe, isso não sei. Sei que era primo do José Ramos. Conheceu o José Ramos? Eu sou neto dele.”


Ele faz uma pausa, encolhe-se, põe a mão no peito (seria provavelmente sugestão, mas pareceu-me que se lhe marejaram um pouco os olhos), tira o chapéu e quase grita: “O José Ramos? Oh, homem, nem me fale no José Ramos! Então eu brincava com ele, fomos gaiatos juntos. Tinha eu catorze anos quando o tio o chamou para Lisboa.”


Ai, o José Ramos. Nem me fale no José Ramos.

“Um dia havia um jogo entre a Travancinha e o Seia. E o José Ramos tinha um amigo, éramos todos amigos, naquele tempo, mas havia assim uma rivalidade. E então, eles, que eram amigos, mas que no jogo era para levar a sério, combinaram que no fim do jogo ia haver um jantar para oferecer à malta. E que o Seia começaria a ganhar dois a zero mas que depois deixavam-se empatar e ficava tudo quite. Só que o Seia ganhou dois a zero e no fim não havia banquete para ninguém, nem para os de Seia, nem para os de Travancinha. Olhe, o José Ramos não descansou enquanto não houve vinho para todos e uns amendoins. E, quando estava já tudo a comer e a beber, perguntou um de Seia se ele também não comia. E sabe o que é que o José Ramos respondeu? Disse assim: “Agora, já não preciso. Não, agora já não preciso””, como se não quisesse partilhar a mesa. Como se quisesse apenas ensinar aos “lá de Seia” o que era a hospitalidade de Travancinha.

“Olhe, era danado, o José Ramos. Tinha um jeito para as beatas, vivia rodeado das beatas”.

A moçoila que estava comigo disse que o neto tinha a quem a sair…

O velhote fez um sorriso maroto e abanou os ombros, num meneio de sabedoria que os anos lhe deram, traduzindo o melhor que podia que ela se devia conformar com os genes malandros do avô.


E acrescentou “Pois, nos bailes as beatas vinham sempre à beira do José Ramos. Pudera, era um homem bonito!”

“Ai, nem me fale no José Ramos! Com ele, não havia fome, nem havia sede! Mesmo depois de o tio o ter chamado para Lisboa, ele continuou a cá vir. E só lhe digo, com ele não havia quem passasse fome, nem quem tivesse sede.”

Então, e como foi isso de ele ter ido para Lisboa?

“Essa é uma história de outros tempos, dos antigos. Então, o António Ramos, o tio do José, trabalhava na Câmara de Seia. Não era chefe, era apenas um empregado. Um dia, estavam os gaiatos todos para Seia, e foram atrás de umas galinhas. É que naqueles tempos não era como hoje, as galinhas andavam aí pela rua. E então perseguiram umas galinhas e, olhe, o António pegou numa galinha e atravessou-a”


A moçoila, para quem o velhote, respeitosamente, sempre dirigiu a conversa, perguntou: “Comeu-a?”


“Pois – confirmou – , atravessou-a. Só que o moço foi contar ao padre. E, claro, o padre contou ao dono. Que era o patrão na Câmara de Seia. E o patrão despediu-o. E então o tio António teve de ir para Lisboa. E quando o sobrinho fez catorze anos, chamou-o para junto de si.


Mas o José Ramos continuou a cá vir. E quando vinha, não havia sede, nem havia fome.”


Ai, nem me fale no José Ramos.

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Back to basics


"Àquela hora, decerto, Jacinto, na varanda em Torges, sem fonógrafo e sem telefone, reentrado na simplicidade, via, sob a paz lenta da tarde, ao tremeluzir da primeira estrela, a boiada recolher entre o canto dos boaideiros."

Eça, A Civilização

Não foram os bois, foram as ovelhas. Um rebanho considerável, e muitas negras. A pastora parecia correr, bem dizíamos as boas tardes, na esperança de recebermos instrução das coisas simples. Ela não queria nada connosco, parecia navegar sobre o manto verde, o rebanho obedecendo como se fosse um único animal, correndo, bem ensinado , em formação de quadrado, um carneiro centurião protegido pelo seu harém lanudo. A pastora pendurava nos braços viçosos uma ovelhinha. Depois de muita insistência, lá afrouxámos o passo da danada. E questionámos, com curiosidade e com deslumbramento, como não sentíamos desde os tempos idos da escola, porque trazia ela a borreguinha pelo cachaço.

"Acabou de nascer, ali pelos campos. Ainda não consegue andar com jeito."

"Acabou de nascer, como? Há quantos dias?"

"Há uma hora ou duas. Atrasou-me. A mãe pôs-se a lamber o pêlo todo e a comer a coisa"

"A placenta?"

"Pois, isso, a placenta" - baixando o olhar e mirando, tímida, o solo enquanto pronunciava, quase muda, essa palavra dos doutores.

"Posso fazer-lhe uma festinha?"

E a pastora consentiu, como se lhe tivessem feito o mais excêntrico - e infantil - pedido.

Mal botámos a manápula na borreguinha - que trazia ainda pendurado no ventre um fio escarlate vivo-, ouvimos um bramido ameaçador por detrás, era a ovelha negra em desespero maternal.

Como o Jacinto queirosiano, em silêncio duvidámos do mote: "Quem não admirará os progressos deste século?"

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17 de dezembro de 2007

Canal Soez


nasal hair problem
Originally uploaded by John (B)

Irrompeu-se-me este trocadilho fácil com o seu púdico (mas razoável) comentário. Mas eu páro já com a pogonologia, prezado MCP. Ainda que me pareça um assunto fascinante.

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14 de dezembro de 2007

Pogonologia

Meu caro JB, pois eu cá acho que um homem sabe estar acabado, outrossim, quando, barbeando-se ao espelho, considera, pela primeira vez, desviar a lâmina Gilette do seu percurso quotidiano de modo a ceifar aquele surpreendente e jovem pêlo nasal. E mais certo fica do termo do seu masculino apogeu quando o dito, moqueando do ridículo esforço de recuperação da perdida viçosidade juvenil, recrudesce, mais moçoilo,mais irrequieto, mais grosso, mais pimpão e ainda mais oblíquo, umas poucas manhãs depois.

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Dicas para o sapatinho

Folheei o livro e pareceu-me interessante. Intrigou-me que o Umberto se tivesse lembrado de escrever uma biografia do nosso Presidente da República, mas afinal o material é mais abstracto.

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11 de dezembro de 2007

Retalhos da vida de um consultor

Aproveitando sofregamente os últimos 15 dias em que se pode matar o vício no estaminé, fui à cafetaria injectar nicotina. Quando regressei, tinha este poster pendurado, recordando o saudoso Justiceiro, embelezando o meu posto de trabalho. Uns queridos, hmm, estes colegas, hmm.


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10 de dezembro de 2007

O prudente

Tinha tanto medo do fracasso que, determinado, entornou o sonho, libertando-o, cano abaixo.

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5 de dezembro de 2007

For the company


Ou muito me engano, ou daqui a uns dias um blogue desactivado há muito vai finalmente sofrer uma actualizaçãozita...
Post-templatum: Nem de propósito, pesquei aqui uma bela posta. De peixe.

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4 de dezembro de 2007

Da hedionda redonda

-10º logo à noite.
Pode ser que o Luís Filipe e o Dí María apanhem uma pneumonia.
Pode ser que as radiações de Chernobyl transformem o pé direito do Cardozo num segundo pé esquerdo.
E que o David Luiz e o Luisão neutralizem a Maria Amélia.
Se, como é provável, nada disto acontecer, lá ficamos a disputar o acesso à Liga dos Campeões do ano que vem com o Vitória de Guimarães.

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29 de novembro de 2007

Xe(i)que Russo


Tempos idos, vivia do e para o xadrez.
Facilitaram-lhe a vida: hoje vive no xadrez.


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26 de novembro de 2007

????

Na festa de aniversário da velha Pergunta Sincera, último exemplar vivo de uma espécie em vias de extinção, a sala de interrogatórios foi bombardeada por muitas perguntas, embora tantas outras tenham ficado no ar. Entre elas, a própria Pergunta Sincera, que, para surpresa das restantes, não compareceu.

Para quebrar o silêncio, e porque não tinha nada a perder, a Pergunta Redundante chegou-se à frente para fazer um oco e interminável discurso de comenda. Como se não bastasse a verborreia da Pergunta Redundante para distrair as atenções, estavam tantas Perguntas Indiscretas na ocasião que as outras não conseguiram ouvir quase nada do discurso.

Felizmente, uma intrusa, a Resposta Categórica, dando um urro e um murro na mesa, de uma penada calou as irrequietas Perguntas Indiscretas, impondo a solenidade que o ocasião exigia.

Aproveitando-se do momentâneo silêncio, a Pergunta Intrigante insidiosamente sibilou aos ouvidos das suas comadres, as Questões Mais Frequentes:
“Olhem lá, aqui entre nós, vocês nunca desconfiaram da relação entre a Pergunta Sincera e a Pergunta Especulativa?”
“Entre a Pergunta Sincera e essa milionária?”, retorquiram, em tom de virgem arrependida, as Questões Mais Frequentes.

Enojada com a infame insinuação, a Resposta Evasiva deu rapidamente à sola.

Mas com tanta Questão Mais Frequente presente, depressa o boato cresceu e chegou aos ouvidos das Perguntas dos Leitores, que trataram de o fazer chegar à imprensa escrita.

Ainda assim, houve uma minoria que desconfiou do rumor, como a Pergunta Lógica, que quis saber porque carga de água precisaria a Pergunta Especulativa da Pergunta Sincera.

Ao que a Pergunta-que-Traz-Água-no-Bico retorquiu, entre dentes, se a questão fundamental não seria a inversa.

De pergunta em pergunta, lá se foi esquecendo o motivo desta história toda.

Numa última tentativa, tentando colocar os pontos nos ii, a Pergunta Difícil questionou os presentes se sabiam a razão da ausência da última Pergunta Sincera.

Deste modo, uma homenagem falhada transformou-se num feliz evento, pois tinha vindo ao mundo uma recém-nascida. A Pergunta Sem Resposta.

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21 de novembro de 2007

Direito de resposta

A propósito disto, caro João, e como hoje acordei, ó horror dos horrores, vascopulidovalentiano dos pés à cabeça, tenho a dizer o que segue.
Portugal tem dois caminhos possíveis: ou aceita de uma vez por todas os Portugueses tal como eles sempre foram, são e serão, ou lhes move uma acção de despejo.

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19 de novembro de 2007

XL

Quanto mais convivo com crianças, mais acredito que a pergunta certa seria: o que não queres deixar de ser quando fores grande?

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16 de novembro de 2007

Requiem da posta

Pelo MCP, o único leitor que sente falta das alarvidades que aqui são escritas (será mal de emigrante, mas isso com o tempo cura-se, suponho) me penitencio pelo longo interlúdio nestas lides. Garanto-vos que não se trata de preguiça, timidez ou, sequer, falta de inspiração. Preguiçoso serei bastante, mas apenas quando se trate de tarefa com contrapartida monetária. Tímidez é qualidade que não possuo (de muitos cuidados me teria livrado se a tivesse na medida certa). A falta de inspiração é manifesta, mas não me tem impedido de escrevinhar estes disparates que, pese a vossa inteligência, persisteis em ir lendo.

Não, não se trata disso. É mister de outra cousa. A causa da minha recente apatia prende-se, antes, com um defeito que carrego comigo desde pequenino: sou demasiado piedoso (como repetidamente me acusa a perspicaz Miss Ao Léu) e saudosista (defeito que partilho com o ilustre autor desse blogue tão mais interessante do que este).

Ora, tenho para mim que um blogue não passa de uma versão moderna de um palimpsesto. Para o leitor que o ignore (e tendo em conta a insensatez do conteúdo das palavras deste escriba, não será de admirar que o leitor médio deste Wordaholic o desconheça), um palimpsesto é uma página manuscrita cujo conteúdo foi apagado (mediante lavagem ou raspagem) e escrito novamente (in Wikipédia). Antes de Guttenberg e da Portucel, o papel era mais raro do que é hoje um jogador decente do Sporting. Por isso, os copistas grafavam os textos e as ilustrações em papiro, e, depois dos textos terem sido lidos por um número suficiente de leitores, raspava-se a camada de tinta e reutilizava-se o papiro para novos textos. E por aí fora. Os escritos antigos tinham, pois, o fado merecido, consoante a respectiva qualidade: ou se perdiam para toda a eternidade ou perduravam na memória dos leitores.

Ora, o que é um blogue senão um palimpsesto digital? Como o espaço visível de um blogue comporta uma quantidade limitada de texto, quanto mais frequentemente se escrever novos posts, mais cedo os anteriores se evaporam. E, ainda que exista um truque chamado arquivo, alguém acredita que o leitor de um blogue deste calibre se dê ao trabalho de o ir catar à procura de alguma pulga, perdão, texto de jeito?

Ora, por muita bosta que seja cada posta, um tipo afeiçoa-se. As nossas postas são como os nossos filhos, nunca vemos os seus defeitos. Aquela posta inspirada, aquele comentário pertinente, aquela raiva tão expressivamente expressada, aquela piadinha tão singela, tudo irá com os beleléus no prazo máximo de, digamos, três semanas, RIP.

Por isso tenho sido poupadinho, como sugerem os nossos governantes. Tive pena das minhas postas. Mas se, como é provável, achardes toda esta tese uma parvoeira pegada, não vos apoquentais. Seguirei o conselho de Vossa Senhoria e escrevinharei com maior regularidade. E brevemente estas linhas terão tido o destino adequado: a obnubilação.

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9 de novembro de 2007

Reencontros

Finda mais uma jorna de labuta, com um astral filho da puta, descia pela rua ao som de Lou Reed, a caminho da doméstica lide.

Anestesiado por um dia de condenado, pressinto, pelo canto desse olho esgazeado, um perfil familiar no semáforo parado.

Arrependido do meu passo de corrida, não rolo mais pela cidade a toda a brida, pois, se à nuca arriba o arrepio, estougo o passo e aquele corpo reaprecio.

Não que fosse uma estampa de tão bonita, mas portava uma linha assaz catita. Era como uma velha amante, fazia-me sentir o Diogo Infante, com ela fui ao reino da Dinamarca e aportei à pátria do Petrarca.

Ó fiel companheira, Inch'Allah que te revi, minha Laguna prazenteira, de teu nome 83-15-HI.




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7 de novembro de 2007

Retalhos da vida de um consultor



Eles de gel, tez de cal, camisa amarela e gravatuncha verde, sapato de borracha, que é mais confortável, discutem com o calor dos grandes debates de quantos milissegundos é feita a transmissão de dados por satélite e as suas vantagens e inconvenientes face à tradicional transmissão por cabo. Elas, colar de crucifixo, túnicas cai-cai e alça do soutien à vista, portadoras de um agradável odor a perfume lavanda, descrevem cada pormenor da última visita ao pediatra que examinou o génio do seu rebento ou as graçolas que se disseram na última sessão do Por um Casamento de Sonho.

As piadas homofóbicas, conversas sobre a arbitragem nacional, os relatos dos Gatos Fedorentos, em alternância com os desafios que a nossa firma tem de enfrentar num quadro de acrescida concorrência, só superável com o espírito de equipa, combatividade e amor à camisola que nos distingue.

O branding, o client relationship, o targeting, os receivables, a performance, o team playing e o team building, o feedback, o role model e o management.

A moradia na Quinta da Marinha, o Lamborghini e o Rolex para uns, o apartamento em Telheiras, o BM e as férias em Punta Cana - "all inclusive", pois claro- para outros.

A imaginativa substituição de substantivos por verbos no infinitivo - "o que é importante é o gostarmos daquilo que fazemos, é o estarmos de bem com a vida e com nós mesmos". A proliferação dos inhos e das inhas - "Agora há uns separadorzinhos que até dá gosto arquivar, fica tudo arrumadinho".

A gaja que masca ruidosamente a pastilha e o tipo que acaba metade das banalidades que profere com a interjeição expressivo-interrogativa "..., ?".

E os e-mails em cadeia. As frases sempre terminadas com inúmeros pontos de exclamação. As apresentações (prazer em conhecer) em Power Point com letrinhas muito coloridas que vão saltitando pelo ecrã, acompanhadas daquela musiquinha bonitinha tão apta para limpar o cuzinho. Os e-mails a pedir sangue, a requerer pedaços da nossa medula, se alguém viu a criança desaparecida, pobres dos pais, imagine que isso lhe acontecia a si. As correntes de solidariedade com as vítimas do Darfur, do Tibete, da Birmânia ("Olha que não é Birmânia, é Myanmar", ai mas a geral cultura do fulano), a Maddie, as fotos do trágico acidente rodoviário na A23, o vídeo do Cristiano Ronaldo, a localização dos radares na A1.

Procura-se bazuca, com munições. Providenciam-se alvíssaras.

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30 de outubro de 2007

O último perfume do Rei Narigão

Epílogo

Soaram as trompas pelo reino, anunciando o torneio. Foi comunicado que tomaria a mão da Princesa Hortênsia o súbdito que desse a saborear ao Rei um odor que lhe fosse totalmente novo. Teriam os pretendentes duas semanas para obter esse perfume desconhecido.

Sabendo dos dotes do rei malvado, compareceram ao torneio apenas três candidatos.

O primeiro usava o nome de Cavaleiro Ardente. Era forte e audaz mas bruto como as casas.

O segundo, de sua graça João Sabichão, era astuto e estudioso, um rato de biblioteca, e feio como uma raposa velha.

O terceiro era formoso, bem disposto e bom compincha, ainda que os seus amigos lhe apontassem o defeito da preguiça. Chamava-se Margarido e Hortênsia estava por ele caída de amores.

O Cavaleiro Ardente pegou no seu cavalo reluzente e zarpou a toda a brida para o Reino das Trevas.

João Sabichão, mal o Rei lançou o repto, sorriu e voltou, plácido, para a biblioteca.

Já Margarido voltou para o seu quarto, onde durante duas semanas não fez melhor do que ouvir música no seu I-Pod, jogar ao Fifa 2008 na PlayStation e namorar com Hortênsia no Messenger.

As duas semanas passaram num ápice e os três pretendentes compareceram perante o Rei.

O Cavaleiro Ardente tinha os cabelos desgrenhados, a face suja e manchada de sangue seco e apresentava queimaduras pelo corpo. Carregava consigo uma geleira, daquelas de piquenique.

Já o João Sabichão trazia na mão direita um copo de cristal, contendo um líquido transparente.

Por sua vez, Margarido apresentou-se, singelo, com a sua velha adaga, enegrecida e corroída pela ferrugem.

O Rei Narigão aproximou-se e o Cavaleiro Ardente abriu a geleira:
“Trago-te o coração de um dragão alado. Apesar de ser um músculo, dizem as lendas que não cheira a carne, mas a enxofre!”
“Pode ser, Cavaleiro Ardente, mas para isso terias que ter posto gelo na tua geleira, grande burro. Isto cheira-me a carne podre. Para o fosso dos jacarés” – e foi para onde a Guarda Real o lançou.

Veio então o João Sabichão. Mostrando ao Rei o copo de cristal, disse-lhe:
“Trago-te as lágrimas de uma viúva recolhidas no funeral. Cheiram a piedade e a desgosto. Aposto que são fragrâncias que desconheces, meu Rei”.
“São lágrimas de crocodilo, isso sim. Foi a viúva que matou o marido, para viver com o amante. Sei-o pelo cheiro, tresanda a luxúria e traição. Para o fosso!”. E a Guarda Real deu mais comida aos jacarés.

Restava apenas Margarido. Aproximando-se do Rei, pediu que este cheirasse o seu velho punhal. Não sentindo outra coisa que não o cheiro a metal enferrujado, Margarido insistiu para que Rei que se aproximasse ainda mais.

Apanhando-o desprevenido, Margarido desenhou com o traço da velha mas afiada lâmina um corte preciso e cirúrgico no pescoço do Rei. Jorrava sangue da jugular.

A Guarda Real pegou em Margarido e já o levava para fora do castelo, preparando-se para lançá-lo aos jacarés, quando o Rei, num último estertor, e fazendo um sorriso de prazer, exclamou:

“Esperem, não o levem. Margarido venceu. Sinto um perfume novo.




É o perfume da minha Morte!”

Margarido desposou Hortênsia, foi coroado como Rei Margarido e viveram felizes para sempre.

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26 de outubro de 2007

O último perfume do Rei Narigão

(Capítulo II)

Esse talento trazia-lhe, no entanto, não poucos problemas. Num reino em que as represas estavam descuidadas, porque o rei não se preocupava com a sede dos seus súbditos, poucos praticavam os hábitos higiénicos mínimos, o que era desagradável para toda a gente, mas ainda mais para as narinas sensíveis do déspota.

Pior ainda, sabia quase sempre o que os outros sentiam. Se, apesar das vénias, o detestavam, cheirava-lhe a urtiga. Se lhe pediam esmola, o odor era a cobre. Se um bobo lhe contava uma anedota, sabia antecipadamente se a piada era de salão, caso em que do bobo exalava um cheiro a chá Earl Grey, ou ordinária, caso em que o comediante tresandava a pimiento padrón. Pelo que já nem uma anedota fazia o rei esboçar um sorriso. Ora, se tão apurado sentido olfactivo lhe era útil para o exercício das suas reais funções, não lhe restava nenhum mistério na natureza humana com que o rei pudesse espantar-se. O rei sentia, pois, um tédio imenso.

Só a princesa, de seu nome Hortênsia, persistia em surpreendê-lo.

Houve um dia, mal tinha acabado o Inverno, que Hortênsia o visitou de manhã nos seus aposentos, estava o rei ainda vestido no seu real pijama de seda perfumada a incenso.

“Querida filha, que pivete é este que sinto no ar? Alguma coisa te preocupa?”

“Senhor meu pai, é a Primavera.”

“E o que tem a Primavera que possa apoquentar a minha linda princesa?”

“Senhor meu pai, não sou mais uma criança, as flores desabrocham e eu preciso de um príncipe. Desejo desposar-me.”

“Filha, queres dar-me, portanto, um herdeiro, alguém que prossiga a minha missão neste reino. Não seja por isso, não julgues que não tenho pensado no futuro, tenho muitos pretendentes que dariam tudo para ter a tua mão.”

“Mas paizinho, eu já tenho um príncipe que amo, é tão bonito e tão gentil.”

“Nem penses nisso, vou organizar um torneio e o vencedor terá a tua mão. Há uma tradição que tem de se cumprir.”

Temerosa, a Princesa Hortênsia chorou lágrimas de alecrim e hortelã.

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24 de outubro de 2007

Da hedionda redonda


É Futebol e é Fado.

Faltou só um bocadinho, Vasquinho. Foi prestes, João.

Não fora o santinho do Tiago. E não fora o pobre do Abel, que, finda a pleita, qual cachorrinho escorraçado, em pública penitência perante os fiéis, gania: "Caim, Caim, Caim".

Mas é preciso ter fé. Certamente que com Esforço, Dedicação e, acima de tudo, uma imensa Devoção, atingirão a celestial Glória.

Nem que para tanto, depois das pias procissões a Belém, Roma e Fátima, o Mister Paulo, de cognome "o Bento", tenha de conduzir os seus acólitos, em romaria, a Jerusalém, a Cidade Santa.

Ámen.

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23 de outubro de 2007

O último perfume do Rei Narigão

Era uma vez um rei viúvo, velho e malvado que tinha uma única filha, jovem e bela.

O rei tinha um nome comprido, nobre, grandioso, daqueles de que só os reis podem usufruir...

Mas todos os súbditos simplesmente o chamavam de Rei Narigão, pois ele tinha um dom: conseguia distinguir com precisão todos os odores, todos os perfumes, todos os aromas.

Era ele ainda muito jovem, e já cometia a ousadia de desafiar os sábios de entre os sábios do Reino da Organdilândia, ao mesmo passo que escarnecia dos famosos perfumistas do Principado da Lavandilândia.

Tão altiva e imprudente atitude valeu-lhe as críticas veladas dos conselheiros do reino, mais experientes e prudentes do que o jovem rei, mas isso não o apoquentou. Não houve cheiro que se lhe escapasse, e, ao desafio, acabou por acrescentar aqueles reinos ao seu novo Império.

Com perseverança e treino, o rei foi aprimorando a sua técnica. E a lenda foi crescendo. Dizia o seu povo que, com o passar dos anos, ele conseguia até sentir o odor das coisas sem odor: como os pensamentos ou os sentimentos.

Isso fazia dele um rei muito poderoso. Sabia sempre quando lhe estavam a mentir, pois, quando o tentavam enganar, sentia um cheirete a vinarrascão (que o rei explicava, aos poucos súbditos a quem dava confiança, ser como que um aroma a vinagre barato de vinho carrascão).

E, sempre que sentia esse cheiro, mandava o mentiroso para o fosso dos jacarés, que eram os seus animais de estimação predilectos. Não tanto pelo seus olhos pintados de âmbar, perfil esguio ou a textura de bicho escorregadio, mas mais pelo seu odor a leite azedo.

(continua, se der na gana ao insane escriba)

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Elementar, meu caro J. Watson

Como bem sabe quem tenha de lidar com um em casa, é certo que os homens são menos inteligentes do que as mulheres.

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18 de outubro de 2007

O abominável homem das neves

"Todos os pólos culturais da sociedade portuguesa estão a dar sinal de alarme. Ataca-se a família como obsoleta e ridícula. A escola passou de veículo ideológico a burocracia rotineira e reivindicante. Artes e espectáculos são minadas pelo clientelismo e tolice. Tenta-se controlar a comunicação social, a qual se rende ao populismo boçal. A perseguição surda à Igreja já levou a uma queixa inusitada da Conferência Episcopal.Assim, mesmo que as reformas funcionem e a economia melhore, o País permanece desmoralizado. Do que Portugal precisa, antes de tudo, não é crescimento e investimento, tecnologia e emprego. Precisa de algo mais precioso: uma ideia, um projecto, um objectivo que empolgue e convença. Algo em que acreditar. Portugal até tem progresso. Precisa de fé."

Citação do DN, do César, porque a César o que é de César. Embora presuma que o ilustre economista não aprecie particularmente o aforismo. Certamente que ele me perdoaria a presunção, nem que seja porque ele há outro aforismo que liga presunção a água benta.

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Retalhos da vida de um consultor



Depois de, à hora previamente marcada, ter apanhado uma seca de duas horas para ser atendido pelos mais broncos funcionários, totalmente incapazes de reagir a um estímulo tão singelo como uma pergunta (o melhor que os seres conseguiram produzir foi "olhe, se não concorda, pode sempre reclamar por escrito"), tudo para que os ditos persistissem em sacar uns cobres valentes a uns pobres coitados, concedo, sem dificuldade, na tirada filosófica mais usada pelo JNP (e pela Margarida Rebelo Pinto, há que dizer com toda a frontalidade) : não há coincidências. Por alguma razão as iniciais de Segurança Social são SS.

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16 de outubro de 2007

Era uma vez uma família

Era uma vez um filho de um senhor tão pungentemente católico. O filho pediu dinheiro e viu perdoados os juros. Também era só o que faltava, o pai cobrar juros pelo dinheiro que empresta ao filho, ainda por cima tão católico, se isso se soubesse, os outros amigos também tão pungentemente católicos quiçá lhe chamassem agiota. Só que o pai diz que não sabia nada dessa mesada. O filho diz que ser filho daquele pai só lhe trouxe problemas. Financeiros, deduz-se. Pois, é o que dá não ter ganho o totoloto nem ser filho de um pai rico. Moral da história: para a próxima vez, o filho devia pedir dinheiro a um banco.

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11 de outubro de 2007

Um modesto verdadeiro é um falso pretensioso

Por isso, perdoa-me, mas escrevo mesmo o que me dizes: sim, hoje será o primeiro passo do resto da tua vida.
Post-templatum: A música da Suzanne Vega era "Book of Dreams" ou "Dream of Books"?

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Armado em Cupido

Para o meu querido casal de arquitectos: M.V., alguma vez disseste à T. que amavas o seu pé direito?

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8 de outubro de 2007

Ainda das relevantes diferenças entre a-socialidade e inocência

Ursa menor

Depois da tempestade provocada por uma intensa cavaqueira numa casa perdida no meio de nada (uma terra intrinsicamente "austrolopiteca" ou "paleolítica", em que um dos temas de debate era precisamente se existiria lugar mais marcadamente primitivo no território nacional, ao jeito do sketch de Monty Pithons sobre as miseráveis condições habitacionais do operariado britânico na revolução industrial ("eu cá vivo numa casa do tamanho de um baú", "mas eu, pá, vivo numa caixa de fósforos")), esgotados os convivas, vem a calmaria.

Um dos anfitriões, momentos antes tão participativo na tertúlia, desloca-se para o terraço, ao relento na noite fria (gélida, sublinhe-se), embrulhado em sacos-cama. Aqui o hóspede junta-se-lhe e faz conversa, ora mais amena.
Que lindo é o espectáculo da noite do campo, aqui está-se de volta às origens, às raízes de infância em que tudo era uma descoberta, olha, ele é cassiopeia, ele é as três irmãs, não consigo vislumbrar a ursa menor e a estrela polar.
E o anfitrião profere qualquer coisa do tipo: sim, o céu está bonito, mas eu gosto mesmo é deste ar frio, faz-me dormir melhor.
No dia seguinte o rapaz tomava chá de cebola, porque lhe tinham dito que fazia bem (embora ele não fizesse ideia a quê) e chá de limão, por estar nitidamente engripado e também não sabia porquê.

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Das relevantes diferenças entre um anti-social e um a-social


Tal como o amoral não tem noção de moralidade, e desse pecado não tem culpa - por contraste com o imoral rebelde - não é fantasioso, em tese, imaginar-se um verdadeiro joker, desses danadinhos para a brincadeira, que proponha receber amigos em casa, desde que seja previamente estipulado um horário, de chegada e de saída. Tal representa, dir-se-á, um estado de inocência pura (no que respeita às mais singelas regras de socialidade mundana).

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4 de outubro de 2007

E hoje há...


Ante-estreia deste filme, com a presença do próprio Paul Auster. Já em Abril desesperava, a coisa chega com cinco meses de atraso. Mas, como diz o JNP, não há coincidências, e ser hoje vem mesmo a calhar, é ou não é, Uma?
Post-templatum: Thanx to yue, Blue.

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Free Burma

Free Burma!
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